ASSESSORIAS DE IMPRENSA BLOQUEIAM ÀS FONTES/Por Eliane Tavares

ASSESSORIAS DE IMPRENSA BLOQUEIAM ÀS FONTES/Por Eliane Tavares
27/03/2026

  Já faz tempo que o jornalismo desapareceu das principais redes de comunicação comercial. Matérias críticas sobre a realidade são raridades. No geral, o que se vê é propaganda política dos poderosos, ou matérias policialescas que incutem o medo na sociedade. Fazer jornalismo de verdade é quase um risco por conta do acosso judicial, o famoso “lawfare”, que nada mais é do que um cala-boca promovido por inúmeras ações judiciais que vão estrangulando os jornalistas. Como quase ninguém mais está empregado – o trabalho é feito como PJ ou em meios alternativos – os processos acabam sendo pessoais. Isso debilita o jornalismo. 

   Mas há outro fenômeno neste campo que é o das assessorias de imprensa, outro espaço de fazer jornalístico. Até pouco tempo ser um assessor de imprensa significava fazer a ponte entre o jornalistas e a empresa ou instituição, e, no mais das vezes, facilitar o acesso dos profissionais do jornalismo aos dirigentes ou empresários.  Pois agora, isso também desapareceu. No geral, a assessoria de imprensa é um anteparo, uma gigantesca barreira que impede o jornalista de chegar à fonte. 

    Tenho passado por isso nas tentativas que faço para ouvir algum secretário da prefeitura municipal. Primeiro que nas páginas da internet sequer tem telefones de contato. Ninguém mais atende telefone. Para fazer contato há que garimpar exaustivamente sobre quem está assessorando quem e conseguir o número de uatizapi. Depois, há que mandar mensagem, porque ninguém atende ligação do uatizapi. Manda mensagem e espera. Se o assessor se dignar a responder, começa todo um rosário de perguntas: mas, de onde tu és, qual teu veículo, o que tu queres perguntar. Bom, a gente responde tudo isso e espera mais um pouco. Aí vem o assessor querendo responder as questões colocadas. Bueno, parece falta de compreensão cognitiva. “Eu quero falar com o secretário”. E o assessor fica brigando com a gente porque não aceita a crítica que está sendo feita ao serviço da secretaria. Ora, onde isso? Quando o assessor de imprensa virou defensor da prefeitura? É uma coisa surreal. 

   Passei por isso há pouco tentando ouvir o secretário responsável pelo transporte coletivo. Uma semana de mensagens com o assessor que, depois de tentar me convencer que o transporte não tem problemas, lançou um lacônico: “vou tentar conseguir um contato”. Depois disso, silêncio. Imagino eu que tenha sido porque o veículo que represento, a rádio Campeche, seja insignificante para ele. Talvez se fosse alguém do Notícias do Dia ou das TVs, ele fosse mais simpático e receptivo. Comigo, foi realmente uma barreira. Não passou o contato do secretário, não deu opção de outra entrevista e ainda tentou ser mais real que o rei. 

  Enfim, se já andamos preparando o enterro do jornalismo, agora com essa dos assessores de imprensa o funeral está ainda mais próximo. Que tempos... que tempos... 

Fenaj Sindicato dos Jornalistas - SJSC


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