
Passei dez anos sem fazer uma das coisas que eu mais gosto: viajar. Os cuidados com o pai fizeram eu dar um tempo nessa coisa de andar por aí conhecendo culturas, pisando em espaços históricos que me encantam. Então, esse ano, meu irmão decidiu me dar um presente, que seria uma viagem até o lugar onde os trabalhadores em luta constituíram seu primeiro governo popular. Um projeto generoso e coletivo chamado Comuna de Paris, que em 2026 completou 155 anos.
A Comuna eclodiu em março de 1871 quando uma insurreição das massas tomou Paris buscando inaugurar um governo popular/socialista. Naqueles dias os governantes haviam fugido para Versalhes, deixando a cidade entregue às tropas prussianas que ocupavam a França. Isso revoltou os moradores que se levantaram e tomaram o controle da cidade, decididos a proteger os parisienses. Instalados no Hôtel de Ville (a prefeitura) os comunados deram vida ao primeiro autogoverno de caráter proletário disposto a desenvolver a consciência de classe.
Marx assim a descreveu: “a Comuna era composta de conselheiros municipais eleitos por sufrágio universal nos diversos distritos da cidade. Eram responsáveis e substituíveis a qualquer momento. A Comuna devia ser, não um órgão parlamentar, mas uma corporação de trabalho, executiva e legislativa ao mesmo tempo. Em vez de continuar sendo um instrumento do governo central, a polícia foi imediatamente despojada de suas atribuições políticas e convertida num instrumento da Comuna, responsável perante ela e demissível a qualquer momento. A partir dos membros da Comuna, todos que desempenhavam cargos públicos deviam receber salários de operários. […] Como é lógico, a Comuna de Paris havia de servir de modelo a todos os grandes centros industriais da França.
Apesar de toda esperança que a Comuna desencadeou no mundo, ela não durou muito: pouco mais de dois meses. Cometeu um erro grave em não ocupar Versalhes. Então, desde lá, os governantes se reorganizaram, uniram-se com as tropas prussianas (inimigas) e conseguiram destruir o movimento, encharcando de sangue o largo da prefeitura onde os trabalhadores faziam barricadas, no que ficou conhecido como a “semana sangrenta”, com mais de 20 mil mortos.
Assim que lá fui eu buscar os indícios desta luta numa cidade que hoje é considerada a “cidade luz”. Qual não foi minha surpresa ao ver que poucas são as marcas deste momento estelar dos trabalhadores na cidade. Na praça em frente ao Hôtel de Ville, onde tombaram milhares, não há nada que os lembre. Só o prédio reformado, já que o original foi queimado na semana sangrenta, na sua beleza, evoca aqueles homens e mulheres que sonharam e realizaram um novo modo de governar. Fiquei sabendo que todos os anos, as pessoas que honram o feito da Comuna se encontram no cemitério, no Muro dos Federados, onde os últimos comunados foram executados. A cidade mesmo, não tem lembranças.
O mesmo acontece com a famosa revolução francesa. Poucos são os sinais deste movimento que mudou o mundo, marcando a ascensão da burguesia. Em Paris, a Praça da Bastilha é só uma praça, e o que sobrou foi um pedaço da base de uma das torres da liberdade, que repousa na Praça Henri Galli. Fiquei frustrada.
Por fim fui buscar a casa onde Karl Marx morou, quando esteve exilado em Paris. Para meu azar, o prédio número 38 da rua Vaneau, onde Marx teve sua residência logo depois de casado e onde nasceu sua primeira filha, estava sendo reformado, com aquelas coberturas de pano tapando tudo. Restou-me andar pela rua onde ele passeava e tirar uma foto na porta de entrada.
Nos dias que se seguiram tratei de viver a cidade, deliciando-me com cafés com creme e croissants.
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