A VIDA (OU A MORTE) COMO NUM FILME RUIN/ Por Fernando Castilho

A VIDA (OU A MORTE) COMO NUM FILME RUIN/ Por Fernando Castilho
26/04/2026


  A vida não cabe numa fotografia. Fotografia é estática, congelada, sem contexto. A vida é filme, cheio de frames antes e depois, cortes mal feitos e finais que raramente convencem.

A fotografia: 

Um jantar oferecido pela Casa Branca a jornalistas. Um homem dispara três vezes. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é retirado às pressas pelos seguranças.

O filme: 

   O jantar, no hotel Hilton, era mais uma tentativa de Trump de se reconciliar com a imprensa que ele havia atacado no dia anterior. Nada de novo: esse evento acontece todos os anos, mas Trump havia faltado aos dois anteriores.

   A segurança, como sempre, parecia impenetrável: homens armados de fuzis, detectores de metais capazes de acusar até um isqueiro. E, no entanto, contrariando toda a parafernália, um homem não branco atravessa correndo o detector e dispara três vezes. Trump é retirado, Marco Rubio se esconde embaixo da mesa, e a maioria dos presentes fica paralisada, como se fosse parte de um teatro mal ensaiado.

  O atirador é dominado e preso. Trump, fiel ao personagem, insiste em voltar ao salão e continuar o jantar como se nada tivesse acontecido. Hoje, fotos e vídeos do autor, um professor e desenvolvedor de jogos chamado Cole Thomas Allen, foram divulgados.

Fim do filme? Talvez. Mas como em toda sessão de cinema, é na saída que começam as reflexões.

  Trump, desde o início do mandato, carregava o fantasma das fotos e vídeos ao lado de Jeffrey Epstein, o magnata das festas com menores de idade. Pressionado, teve uma ideia digna de roteiro ruim: uma guerra desviaria o foco. O alvo escolhido? O Irã, claro, eterno figurante do “eixo do mal”.

   O problema é que o Irã não leu o roteiro. Com drones de 50 mil dólares, derrubou caças de 15 milhões, fechou o estreito de Ormuz e ainda furou o Domo de Ferro de Israel. Resultado: prejuízos bilionários e destruição em Tel Aviv. Trump não esperava por isso. Mas quem espera que um ator secundário roube a cena?

 Enquanto isso, protestos explodiam nos EUA. Pesquisas mostravam até 70% de rejeição ao governo. O impeachment rondava como um spoiler inevitável. Era preciso algo maior que uma guerra: uma comoção nacional.

E eis que surge o homem que invade o jantar. Três tiros, nenhum acerto. Nenhum ferido. Preso sem ser abatido. Convenientemente vivo para ser fotografado e exposto. Armação? Se fosse, por que se deixar capturar? Se não fosse, por que tanta coincidência?

    Num mundo em que até as imagens podem ser fabricadas por inteligência artificial, quem garante que Cole Thomas Allen existe? Mas calma, não vamos nos precipitar: teorias da conspiração são como trailers ruins, sempre aparecem antes do filme principal. Basta lembrar de 1963, quando Kennedy foi morto e até hoje ninguém explica direito o que aconteceu com Lee Harvey Oswald.

   Seja verdadeiro ou encenado, o atentado dificilmente criará a comoção que Trump precisa. O americano médio já está ocupado demais tentando pagar o custo de vida, que só sobe. Agora, com tarifas de 30% sobre produtos brasileiros, até o café da manhã virou artigo de luxo. Sem café e sem carne, quem vai se comover com tiros que não acertaram ninguém?

   No fim das contas, talvez a fotografia seja mesmo suficiente: um presidente correndo, jornalistas em pânico, seguranças em ação. O filme, esse, já perdeu o ritmo. E como todo filme ruim, só resta ao público sair da sala reclamando do ingresso caro.

Em tempo: após o jantar ser cancelado, jornalistas foram filmados colocando caríssimas garrafas de champanhe em suas bolsas. Querem ilustração melhor do que essa sobre o que significa o capitalismo? Enquanto por aqui chamam a isso de saque, por lá chamam de compensação.


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