
A esquerda não pode, não deve e não precisa ganhar o voto evangélico como se este fosse um espólio a ser conquistado à força de barganhas. O que ela precisa é conquistar a sociedade brasileira como um todo e, nesse movimento, também os evangélicos, a partir de pontos concretos e comuns. Não adianta ir ao pastor, tentar cooptar lideranças, promover o voto de cabresto, prometer cargos no STF para evangélicos ou evitar temas polêmicos por medo de desagradar. Essa estratégia, aliás, tem sido bastante frequente nos últimos tempos: “não coloque a Érica Hilton na Comissão da Mulher, isso provoca os conservadores”; “não fale sobre a lei da misoginia, vamos deixar as mulheres morrerem até ganharmos as eleições”; “não toquemos no aborto”, “nada de falar em direitos de minorias”. E, para fechar com chave de ouro, bastaria indicar um ministro evangélico ao STF. Quando tudo vira temor, sobra apenas a ideia dos favores.
Mas o episódio Jorge Messias deixou claro que tentar conquistar o voto de setores religiosos por meio do medo e da concessão de favores não é o caminho. Não se busca o voto evangélico com concessões teológicas ou benesses a líderes, mas com um projeto de país que faça sentido para o evangélico enquanto sujeito de necessidades reais de melhoria de vida, a partir de suas condições básicas e materiais. A maioria da população, exceto os bolsonaristas fanáticos, vota muito mais por questões objetivas do que ideológicas.
A esquerda precisa conquistar os evangélicos como parte orgânica da sociedade brasileira, não como um grupo isolado que exige privilégios especiais, só o voto quantitativo - que não politiza - em detrimento do qualitativo sempre cobra seu preço cedo ou tarde. Também vejo um obstáculo adicional, a pesquisa sociológica encolheu de modo assustador. As investigações têm sido cada vez mais reduzidas, predominantemente numéricas e voltadas apenas à identificação de quem está na frente. Sem a universidade como parâmetro com pesquisas empíricas de qualidade, jornalistas e políticos passaram a tirar conclusões sobre o que o outro pensa a partir da própria internet. O resultado é um eco circular, no qual cada um reproduz aquilo que imagina.
É um caminho árduo, que exige estudo e compreensão verdadeira do que o brasileiro pensa. A esquerda precisa se transformar numa máquina de informação e de diálogo, capaz de convencer pela lógica e por projetos que melhorem, de fato, a vida de todos. Precisamos voltar a entender que voltar à ideia de que esquerda é pedagogia. Esquerda é explicar. Esquerda é convencer explicando. A esquerda aposta na capacidade que as pessoas têm de dar e receber razões para que, pelo menos, parte dessa população - que representa metade do eleitorado e vota na direita - possa identificar uma pauta comum no campo progressista.
Que o alerta tenha ficado claro - ainda há tempo.
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