LEPRA / Por Chico Guil

LEPRA / Por Chico Guil
22/05/2026


  Vou lhe contar um causo sobre esta foto, caso queira conhecer a minha história. Eu tinha 17 anos e encontrava-me na Praça Ucrânia, em Prudentópolis. Nessa época me achava o cara mais feio do mundo, vítima de uma doença incurável. Note a assimetria entre os braços. É talvez por causa dessa assimetria, ou do que a causou, que eu estava aí.

  Nasci pelos pés, o que provocou uma lesão no meu nervo radial esquerdo, resultando na total falta de sensibilidade numa faixa que se estende do ombro ao dedão. Também causou um problema ortopédico, que me impede de levantar a mão esquerda acima da cabeça.

Apesar disso, meu braço esquerdo não era um problema. Para mostrar o quanto era valente, desafiava meus amigos a me enfiar um espinho no braço. Eles enfiavam e eu ficava dando risada, pois não sentia dor alguma. 

    O problema começou quando eu tinha 14 anos. Foi numa viagem à Barra Vermelha, onde eu e meu pai íamos buscar uma carga de feijão. Estávamos quase chegando àquele povoado, quando ele jogou os restos de seu charuto pela janela. O vento conduziu o fumo incandescente sobre a carroceria, onde havia um amontoado de sacos de estopa vazios. Percebemos as labaredas somente quando trincou o vidro atrás da cabina. Elas já se aproximavam do tanque de combustível quando conseguimos extingui-las. Ao ver a carroceria tomada de cinzas, o vidro quebrado e um buraco no assoalho, e ao constatar que teríamos de retornar à cidade com o caminhão vazio (os sacos eram para embalar o feijão), o polaco deu uma botinada num pneu e jurou que nunca mais colocaria um cigarro na boca.

   Naquele momento passava um jipe conduzido por um padre de cabelos de lã. Dirigia-se a uma comunidade vizinha para verificar os preparativos de uma festa. Notando na estrada a sacaria queimada, estacionou o veículo e apeou. Tão logo meu pai narrou o incidente, o religioso apanhou uma garrafa d’água do jipe, colheu uns raminhos à beira da estrada e circundou o caminhão, benzendo-o. Concluía sua feitiçaria quando viu meu braço esquerdo manchado de cinzas. Tomou-o nas mãos e constatou que estava ferido pelas chamas.

— Está doendo? — inquiriu.

— Não sinto dor neste braço — falei. 

O religioso estalou os olhos numa expressão de repulsa e me soltou imediatamente.

— Não sente dor? Nenhuma dor no braço inteiro?

— Neste lado, não...

Antes que eu concluísse, o padre voltou-se para meu pai com um olhar sombrio.

— Quando não sente dor no couro, é lepra — falou. Sem maiores explicações, após lançar-me num abismo, subiu no jipe e prosseguiu sua viagem para o inferno. 

   Meu pai não deu importância, pois sabia que a insensibilidade no braço devia-se à lesão no nervo. Mas eu, cabeça de adolescente, acreditei no azar. Naqueles dias, temeroso de passar a lepra para a família, transferi minha cama para o rancho, ao lado da lavanderia, depósito das minhas caixas de abelha. Foi onde vivi os anos seguintes, entre aranhas e favos de mel. 

    Os inquilinos do meu apiário eram tarântulas e pequenos ratos amarelos. Habitavam o vão entre a coberta de eternit e a tampa de madeira da colméia. Com o vai-vem das caixas entre o apiário e o rancho, naturalmente alguns desses animais passaram a repartir comigo o aposento. Os ratos não se habituaram ao conforto da cidade e logo sumiram, mas as tarântulas permaneceram e se multiplicaram. Eram constantes nas paredes, com seu andar lento e o aspecto temível. Mas as criaturas que animavam minha alma eram mais feias e perigosas. Eis por que as aranhas nunca foram perturbadas. 

    Em muitos trechos da Bíblia eu havia encontrado a lepra. Sabia que as vítimas se desmanchavam em feridas antes de morrer. Também encontrei referências sobre a enfermidade em outros livros. E agora ocupava-me em encontrar outros sintomas da doença em meu corpo condenado. Desde que o padre enfiara o veneno em minhas veias, encontrava-me naquelas fossas onde os romanos jogavam seus leprosos. Meu corpo era comido pelos bacilos assassinos! Bastava ler sobre os sintomas, eles se manifestavam. Caíam os meus supercílios e os polegares estavam ficando duros. Manchas brancas logo estariam espalhadas pela pele. Eu já adivinhava uma ou outra, ainda minúsculas, mas existiam! As chagas não tardariam a surgir! E eu não sabia a quem recorrer.

  Um mazoquista nunca se satisfaz com pouca dor. Deve doer até a medula, sangrar até a última gota, esgotar-se pela fome e pelo sacrifício para mostrar o quanto é justa sua infelicidade. Talvez por isso eu sentia qualquer coisa de sublime quando a chuva me apanhava no apiário, fazendo encharcar até a cueca, o frio correndo pela espinha, os lábios tiritando de frio, no mais pleno desconforto. Ao cair da tarde sentava-me num tronco de imbuia, no topo da subidão do Augusto Buczka, de onde apreciava a cidade e ouvia o alto-falante melancólico do Arnaldo Klosowski. As vozes de Odair José e Roberto Carlos faziam doer minha alma até o desespero. A única que me proporcionava algum prazer era o Largo de Xerxes, de Haendel, o hino escolhido por Arnaldo para anunciar os funerais. Nalguns trechos eu sentia que toda a cidade estava morta, e aquilo era uma bênção!

     Quem veio para me salvar foi M.I.R., uma enfermeira do hospital Sagrado. Eu estava sentado num banco, aguardando para uma consulta médica, quando ela surgiu. Linda, frenética, um olhar magnético. E entregou-me um olhar que nem mesmo Nastasja Kinski conseguiria me oferecer. E um sorriso que nem Fanny Ardant poderia me ofertar. E na maior co-incidência já ocorrida na minha vida, na semana seguinte meu colega Nentcho Ternoski convidou-me a levar a passeio duas enfermeiras do hospital Sagrado.

    Apesar do buraco profundo em que me encontrava, aceitei a oferta. E naquela noite sagrada, num momento em que estivemos sós, M. I. R. e eu, contei-lhe toda a minha tragédia e ela não saiu correndo. Colocou uma mão no meu rosto e disse, “Eu vou te ajudar”. E este foi o início da minha cura. Foi ela quem tirou esta foto, em janeiro de 1981. (Depois ainda viriam muitas sessões de psicoterapia para extrair aquela semente diabólica plantada em minha cabeça pelo “religioso”).


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