
Menos de um ano após o início do novo mandato presidencial de Trump, a administração norte-americana apresenta já sinais de desgaste político, fragmentação interna e crescente instabilidade governativa.
A mais recente saída - Tulsi Gabbard do cargo de Diretora de Inteligência Nacional - veio apenas juntar mais um nome a uma lista cada vez mais extensa de demissões, exonerações, substituições e afastamentos nos mais altos níveis do aparelho de Estado norte-americano. A lista começa a tornar-se politicamente reveladora:
Tulsi Gabbard - Diretora de Inteligência Nacional
Mike Waltz - Conselheiro de Segurança Nacional
Kristi Noem - Secretária da Segurança Interna
Pam Bondi - Procuradora-Geral
Lori Chavez-DeRemer - Secretária do Trabalho
Charles Q. Brown Jr. - Chefe do Estado-Maior Conjunto
Linda Fagan - Comandante da Guarda Costeira
Cameron Hamilton - Diretor interino da FEMA
Caleb Vitello - Diretor interino do ICE
Corey Lewandowski - Conselheiro sénior do DHS
Joe Kent - responsável ligado ao aparelho de Inteligência
Tricia McLaughlin - responsável de comunicação do DHS
E a sensação em Washington é de que a lista ainda não terminou.
A administração Trump parece repetir, de forma ainda mais acelerada, um padrão já observado no primeiro mandato: uma governação baseada num círculo cada vez mais restrito de lealdades pessoais, onde a estabilidade institucional vai cedendo lugar à lógica de fidelidade política absoluta.
Cada saída reduz o número de figuras independentes dentro da administração. Cada substituição aproxima o governo de um modelo mais fechado, mais desconfiado e mais dependente de um pequeno núcleo político centrado exclusivamente no presidente.
O problema é que, numa superpotência global, a erosão da estabilidade governativa não é apenas um detalhe administrativo. Quando saem responsáveis da Inteligência, da Defesa, da Segurança Interna ou da Justiça, o impacto ultrapassa a política interna americana. Os aliados observam. Os mercados observam. Os adversários estratégicos observam. Mais preocupante ainda é a perceção crescente dentro do próprio Partido Republicano de que o ambiente político pode deteriorar-se rapidamente antes das eleições intercalares.
Nos bastidores republicanos já se discute aquilo que poucos admitem publicamente: a possibilidade de uma derrota significativa nas midterms caso a economia desacelere, os conflitos externos se agravem e a instabilidade interna continue a aumentar.
Nessa perspetiva, algumas das saídas recentes podem não ser apenas fruto de divergências políticas ou razões pessoais. Podem também representar um movimento preventivo de distanciamento face a uma administração cuja imprevisibilidade começa a preocupar até sectores tradicionalmente alinhados com Trump.
A história política americana mostra que governos fortes atraem quadros ambiciosos. Governos percebidos como frágeis começam a assistir ao movimento inverso: os responsáveis procuram sair antes do desgaste final. Ainda é cedo para afirmar que a administração Trump entrou numa fase terminal de erosão política. Mas já não é cedo para reconhecer um facto evidente: em menos de um ano, o governo perdeu uma quantidade invulgar de figuras de topo.
E quando um governo começa a desfazer-se aos pedaços, raramente isso acontece sem consequências profundas para o próprio poder presidencial.
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