A NARRATIVA DA FIFA - O DESPORTO DOS INTERESSES/Por João Gomes

A NARRATIVA DA FIFA - O DESPORTO DOS INTERESSES/Por João Gomes
24/05/2026


    O futebol gosta de repetir que “une os povos”. A frase soa bem nos microfones, encaixa nos anúncios milionários e emociona patrocinadores. Mas, quase sempre, o problema começa quando a realidade entra em campo.

      Na recente reunião da FIFA, tentou-se produzir um daqueles momentos cuidadosamente encenados para as câmaras: o representante de Israel e o representante da Palestina lado a lado, perante o olhar satisfeito da direção da organização, quase como se um aperto de mão pudesse apagar ruínas, mortos, cercos e sofrimento humano. Claro que o representante palestiniano recusou. E recusou bem.

    Há momentos em que um gesto simbólico deixa de ser símbolo de paz e passa a ser exigência de silêncio moral. Porque ninguém pode pedir naturalidade diplomática a quem vê o seu povo esmagado diariamente diante das imagens do mundo inteiro. Um aperto de mão não é neutro quando existe um abismo de sangue entre os dois lados.

     O mais curioso veio depois: a tentativa do presidente da FIFA, Gianni Infantino, de recordar que “o desporto deve unir” e que aquele era um espaço acima da política. Uma frase bonita. Tão bonita quanto conveniente. Porque esse mesmo “desporto sem política” aceitou sem hesitação o afastamento da Rússia das competições internacionais após a guerra na Ucrânia. Afinal, nesse caso, a política entrou em campo, vestiu botas de futebol e ocupou o relvado inteiro.

   E então surge a pergunta inevitável: o desporto deve ou não deve misturar-se com a política? A resposta da FIFA parece simples - depende de quem está a ser sancionado, de quem são os aliados do Ocidente e de quais interesses económicos e geopolíticos estão em jogo. A dualidade de critérios tornou-se tão evidente que já nem se tenta escondê-la; apenas se reveste de linguagem institucional e frases sobre “unidade”, “respeito” e “valores do futebol”.

     Mas o futebol não vive fora do mundo. Nunca viveu. Os mundiais serviram ditaduras, propagandas, interesses comerciais e operações de imagem ao longo de décadas. Fingir agora que o desporto existe numa redoma moral isolada da realidade é talvez o maior exercício de ilusionismo da FIFA.




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