
Há muito que a politica de Moscovo parece seguir uma estratégia de desgaste e de paciência. Um conflito de defesa das suas fronteiras e de salvaguarda da sua economia e progresso sem calendário definido, onde o fator tempo é encarado como uma arma tão importante quanto os meios militares. Uma espécie de conflito existencial destinado a demonstrar que os avanços do Ocidente, frequentemente apresentados como exercícios de "engenharia geopolítica" ou de promoção da democracia, são perfeitamente compreendidos e antecipados pela liderança russa.
Nesta leitura, as transformações políticas ocorridas em diversos países da antiga esfera soviética não resultariam apenas de dinâmicas internas. Começariam, muitas vezes, pela fragilização propositada da economia desses Estados, seguida pela oferta de empréstimos e programas de assistência financeira por parte de instituições internacionais como o FMI ou o Banco Mundial. A partir daí, abrir-se-ia caminho para uma reorientação política e cultural destinada a afastar essas sociedades das suas antigas referências e a convencê-las de que a integração nas estruturas ocidentais, nomeadamente na União Europeia, constitui a solução para os seus problemas.
Para alcançar esse objetivo, seria necessário conquistar aliados internos: promover determinadas figuras políticas, oferecer perspetivas de poder, apoio financeiro e reconhecimento internacional, influenciar os sistemas políticos e eleitorais e favorecer mudanças de regime apresentadas como expressão espontânea da vontade popular. Seguir-se-iam manifestações, movimentos de contestação e campanhas de comunicação frequentemente apoiadas, direta ou indiretamente, por interesses externos.
Existe ainda algo que não passa despercebido aos defensores desta interpretação: enquanto o discurso dominante acusa a Rússia de interferir nos processos eleitorais de outros países, Moscovo responde acusando o Ocidente de utilizar precisamente os mesmos métodos há décadas. Sérvia, Arménia ou, mais recentemente, a Albânia são frequentemente apontadas como exemplos dessa disputa silenciosa pela influência política, económica e cultural.
A oferta de investimentos, a promessa de prosperidade e a integração nos circuitos do capital internacional surgem, nesta perspetiva, como instrumentos de atração tão relevantes quanto os mecanismos tradicionais da diplomacia. O objetivo não seria apenas alterar governos, mas transformar gradualmente as referências políticas e ideológicas das populações.
Verdadeira ou exagerada, esta narrativa revela uma realidade difícil de ignorar: no mundo contemporâneo, a disputa entre potências raramente se faz apenas através das armas. Faz-se também através do crédito, da comunicação, da influência cultural, das organizações internacionais e da capacidade de moldar perceções coletivas. E, nessa luta, sem duvida que o bloco ocidental pode reivindicar para si o monopólio dessa virtude. Já o faz desde o Plano Marshall para a Europa, após a WW2.
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