Cinco filmes indispensáveis para assistir depois da Parada LGBTQIAPN+

Cinco filmes indispensáveis para assistir depois da Parada LGBTQIAPN+
11/06/2026

Cinco filmes indispensáveis para assistir depois da Parada LGBTQIAPN+

Produções de diferentes países mostram como o cinema preserva memórias, enfrenta apagamentos e transforma histórias de resistência em legado coletivo.

Publicado 10/06/2026 11:42

Participante da Parada do Orgulho LGBT+ de SP | Foto: Luiz Gabriel Franco

A 30ª edição da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, na Avenida Paulista, acontece sob ameaça. Na semana passada, a Câmara Municipal aprovou em primeira votação um projeto de lei que proíbe crianças de participar de eventos que façam alusão a práticas LGBTQIAPN+, mesmo acompanhadas pelos pais, e que impede a ocupação de vias públicas para esse tipo de manifestação. A parada que completa três décadas de existência faz isso com um projeto de sua própria proibição tramitando a poucos quarteirões de distância.

Isso não é novo.

A tentativa de apagar corpos dissidentes do espaço público tem uma história longa e organizada, e o cinema registrou essa história com uma precisão que os arquivos oficiais nunca tiveram interesse em fazer. Filmar corpos que o Estado quer invisíveis é sempre um ato político, e assistir a esses filmes depois de uma tarde na Paulista não é entretenimento. É continuação.

Os cinco filmes abaixo não são sobre orgulho no sentido que o mercado transformou essa palavra. São sobre memória, resistência, identidade e o preço concreto que corpos dissidentes pagam por existir em público.

“Paris Is Burning” (1990), de Jennie Livingston – EUA

Nova York, anos 1980. A epidemia de AIDS dizimava uma geração inteira enquanto o governo Reagan fingia não ver, e uma comunidade de homens negros e latinos gays e trans inventou um mundo dentro do mundo, com casas, mães, filhos, competições e uma linguagem própria que o mainstream demoraria décadas para roubar sem dar crédito.

O documentário de Livingston mergulhou nessa cultura ballroom com câmera próxima e tempo suficiente para que as pessoas filmadas dissessem o que precisavam dizer, e o que elas dizem é ao mesmo tempo devastador e luminoso: que a dignidade não é concedida pelo Estado, é construída coletivamente por quem o Estado abandonou. Venus Xtravaganza queria ser uma mulher comum, ter um marido, uma casa no subúrbio, coisas que qualquer pessoa teria direito de querer. Ela foi assassinada antes do filme terminar, e a cena em que fala sobre seus sonhos é uma das mais políticas que o cinema já registrou, precisamente porque não tenta ser.

Foto: reprodução/Mubi

“Tatuagem” (2013), de Hilton Lacerda – Brasil

Recife, 1978. A ditadura ainda governa, ainda censura, ainda bate, mas já começa a mostrar suas rachaduras, e no meio desse país uma trupe de teatro anarquista na periferia da capital faz exatamente o que o regime proíbe: coloca corpos em cena, corpos desejantes, corpos que recusam a disciplina que o Estado quer imprimir neles.

Lacerda buscou inspiração no Grupo Vivencial Diversiones, que existiu de verdade naquele Recife de fim de ditadura, e transformou essa história numa meditação sobre o corpo como território político, como o lugar onde a repressão se instala primeiro e onde a resistência também começa. Quando Clécio e Fininha se encontram, o que está em jogo não é apenas um romance, é a colisão entre duas formas de existir, dois corpos com obrigações opostas diante do mesmo Estado. O filme não resolve essa colisão. Apenas a filma com honestidade suficiente para que doa.

Foto: reprodução/Cinemação

“Rafiki” (2018), de Wanuri Kahiu – Quênia

O governo do Quênia baniu o filme antes mesmo de ele estrear no país, sob a acusação de promover o lesbianismo, e exigiu que a diretora mudasse o final para algo triste, porque o original era esperançoso demais para um país onde a homossexualidade é crime com pena de até 14 anos de prisão. Wanuri Kahiu recusou, processou o próprio governo, e o filme chegou ao Festival de Cannes como o primeiro longa queniano a ser exibido na Croisette.

O que Kahiu filmou é a história de amor entre Kena e Ziki, duas jovens de famílias politicamente rivais em Nairóbi, e o que torna “Rafiki” insubstituível nesta lista não é apenas a beleza formal do filme, sua paleta de cores vibrantes e a delicadeza com que captura o envolvimento dos corpos, mas o fato de que sua simples existência é um ato de resistência: existe uma diretora negra africana que filmou amor lésbico com esperança, e o Estado tentou impedir que esse filme existisse, e o filme existe.

Foto: reprodução/Mubi

“Uma Mulher Fantástica” (2017), de Sebastián Lelio – Chile

Marina Vidal perde o namorado de uma hora para outra e passa o filme inteiro tentando exercer o direito mais elementar que existe: o direito de chorar por alguém que amava. A família do morto não aceita sua presença, a polícia questiona sua identidade, os médicos tratam seu corpo como um problema burocrático, e ela precisa reafirmar quem é em cada cena, contra cada pessoa que decide que tem autoridade para dizer quem ela não é.

Lelio filmou isso como melodrama, no sentido mais preciso da tradição latino-americana do gênero, e escalou a atriz trans Daniela Vega para o papel central, o que transforma a atuação em algo que transcende a interpretação porque é também testemunho. A vitória do filme no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2018 foi usada pelos ativistas LGBTQIA+ chilenos para pressionar a aprovação de uma lei de identidade de gênero, e o Chile aprovou essa lei ainda no mesmo ano. O cinema pode não mudar o mundo sozinho, mas às vezes ele muda uma lei, e uma lei pode mudar uma vida.

Foto: reprodução/Mubi

“Bixa Travesty” (2018), de Kiko Goifman e Claudia Priscilla – Brasil

Linn da Quebrada não faz concessões, e o documentário deixa isso claro desde os primeiros minutos, o que é exatamente o motivo pelo qual ele é necessário.

O filme acompanha a trajetória artística e existencial de Linn num Brasil que tenta, sistematicamente, decidir o que corpos trans negros podem ou não podem ser, onde podem aparecer, que tipo de arte podem fazer. Goifman e Priscilla filmam Linn com intimidade e respeito, e o que resulta é um retrato onde identidade, gênero, raça e classe não são tópicos de debate, são a textura da vida de uma pessoa real que transforma tudo isso em música, em performance, em recusa. “Bixa Travesty” venceu o Teddy Award em Berlim e chegou ao Brasil quase em surdina. O que diz muito sobre o país que o produziu.

Foto: Nubia Abe / Divulgação

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FONTE: Vermelho (vermelho.org.br)

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