De Doca Street a Monique: da militância que mudou o mundo ao mundo que mudou a militância/ Por Isabel Moreno

De Doca Street a Monique: da militância que mudou o mundo ao mundo que mudou a militância/ Por Isabel Moreno
11/06/2026


    Há meio século, no dia 30 de dezembro de 1976, em Armação dos Búzios (RJ), a socialite Ângela Diniz foi morta com quatro tiros pelo seu ex-namorado, o "empresário" paulista Raul Fernando do Amaral Street, conhecido como Doca Street. Ângela havia decidido colocar um fim ao relacionamento abusivo e de ciúmes intensos de um garotão boa-pinta que se envolveu com uma mulher vida loka sabendo que ela curtia sexo, drogas e MPB, achando que tinha a situação sob controle.  A socialite nunca escondeu de ninguém que curtia uma safadeza e botou ele pra correr dali.  O bonitão não aceitou, voltou na casa e assassinou-a covardemente, alegando legítima defesa da honra (um estado mental para uma espécie de pré-corno).  Ora, foi justamente para não corneá-lo que a socialite o mandou vazar dali. 

    Cinquenta anos atrás. Outro mundo povoado por outras pessoas.  Doca Street foi absolvido sob a alegação que o verdadeiro sofredor era ele, que em defesa de sua honra privou a mulher amada da existência, tendo que suportar o peso de viver sem ela para sempre.  As militantes feministas não deixaram isso barato: se uniram, saíram às ruas, expuseram a crueldade do ato contra uma mulher indefesa que estava no seu direito de ser livre (e de estar viva).  

     A pressão foi tamanha que o ridículo julgamento do covardão foi anulado e ele foi a outro júri, onde pegou quinze anos de cadeia, numa condenação inédita onde a intensidade da militância feminista mudou o Brasil para sempre.  Mulheres que queriam viver saíram às ruas para pedir justiça à uma mulher morta.  Ela gritavam: "Quem ama não mata!", numa resposta direta que acertou em cheio o ponto central do machismo e da misoginia, que transformava as mulheres em peças de uso descartável quando decidiam decidir a sua vida sem aguardar pela decisão de ninguém.

   Meio século depois, o mundo é outro.  A longa revolução do Feminismo ajudou a criar uma sociedade onde as mulheres têm o direito de escolha e todas escolhem, seja uma carreira no serviço público, uma atividade empresarial ou escorar-se num marido rico para garantir status.  Nada disso é retrocesso, pois somos todas o produto final do Feminismo, algo como pós-Feministas, visto que a minha geração já nasceu colhendo os frutos dessa revolução.

   A militância que mudou o mundo não percebeu que o mundo mudou.  O Feminismo nunca foi sobre empoderamento, mas sobre o direito de escolha.  Antes, as mulheres saíam da casa do pai para a do marido e usavam o CPF dele, chegando ao ponto se na lua-de-mel o noivo descobrisse que a noiva não era mais virgem, poderia pedir a anulação do casamento.  E a noiva?  Quem ligava?

     O Feminismo foi um tapa na cara na hipócrita sociedade patriarcal, expondo a crueza fria de um homem que assassinou a ex-namorada porque se sentiu corneado ao ser dispensado, numa época em que "escolher" era um privilégio masculino.

A militância feminista venceu a parada, retirou do masculino o monopólio da escolha e mudou o mundo.  Hoje, não estamos militando para garantir direitos iguais, pois eles são iguais. Militamos para que não nos tirem o direito de escolha que nos foi legado a duras penas por aquelas verdadeiras guerreiras que apanharam muito ontem para não apanharmos hoje.

     A militância atual não pode e nem deve confundir imposição com escolha.  Pelo visto, aquela juíza cometeu esse erro.

No seu direito de escolha, muitas mulheres escolhem não trabalhar, escolhem homens bem-sucedidos para bancar seus gastos, escolhem disputar com outras mulheres a atenção de um bonitão simplesmente por ser bonitão, escolhem não fazer uma faculdade, escolhem homens violentos e dominadores, escolhem ser anti-Feministas, escolhem ser mães superprotetoras e escolhem ser péssimas mães.  Foi neste último que a juíza deve ter se enganado ao relevar o fato de que aquela mãe escolheu conviver com um monstro a ponto de escolher esconder as agressões sofridas pelo seu filho pelas mãos do monstro que ela escolheu para bancar um alto padrão de vida, mesmo que isso lhe custasse sua alma.  Contra a Monique não houve opressão machista e nem misoginia, mas um questionamento de toda sociedade pelas escolhas que ela fez.

Há meio século, a militância feminista acolheu a mulher morta e por ela pediu justiça.  Meio século depois, a militância feminista não pode ignorar a criança morta e negar-lhe justiça.


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