CARTA A UMA VIOLÊNCIA QUE NÃO PRESCREVE/ Por Maria Martins

CARTA A UMA VIOLÊNCIA QUE NÃO PRESCREVE/ Por Maria Martins
23/06/2026


Há uma violência que não se anuncia como violência.

Ela se apresenta como procedimento.

Como norma.

Como “decisão técnica”.

Mas o que ela produz é profundamente político:

a contenção de mulheres que ousam demais.

Essa violência não precisa gritar.

Ela organiza silêncios.

Não precisa bater.

Ela distribui punições simbólicas.

Não precisa xingar.

Ela constrói narrativas que transformam a vítima em problema.

Quando uma mulher ocupa espaços de produção de conhecimento, quando constrói autoridade intelectual, quando projeta futuros que escapam ao lugar social que lhe foi reservado, ela passa a ser vista como incômoda.

Não é coincidência.

É estrutura.

O que se chama de “conflito administrativo” muitas vezes é pedagogia do poder:

ensinar, pelo medo, quem pode avançar e quem deve recuar.

Essa forma de violência não interrompe apenas trajetórias individuais.

Ela regula o acesso das mulheres ao direito de sonhar alto.

Ela opera como tecnologia de contenção:

não precisa expulsar todas.

Basta quebrar algumas, para que as outras aprendam.

O que me foi feito não foi um acidente.

Foi um recado.

Um recado inscrito no corpo, no tempo, no projeto de vida:

“vá até aqui.

Daqui para frente, você incomoda.”

A violência institucional contra mulheres raramente se assume como misoginia.

Ela se esconde atrás da neutralidade.

Mas neutralidade é uma das máscaras mais eficazes do patriarcado.

Porque o patriarcado contemporâneo não precisa mais ser grosseiro.

Ele pode ser educado.

Técnico.

Burocrático.

E ainda assim profundamente destrutivo.

Quando um projeto de vida é interrompido por abuso de poder, o que se atinge não é só a carreira.

É a possibilidade de existir plenamente como sujeito de saber.

Isso não é individual.

É político.

Muita gente fala de teto de vidro.

Mas há também os corredores estreitos:

lugares onde mulheres entram, mas não devem permanecer.

Onde podem circular, mas não se consolidar.

Onde podem tentar, mas não concluir.

Essa é a violência que não prescreve:

a que ensina o corpo a ter medo do próprio desejo.

A que transforma ambição em risco.

A que faz o sonho parecer imprudência.

Mas escrever é romper esse pacto de silêncio.

Transformar dor em palavra é um gesto político.

Nomeá-la como violência é um gesto feminista.

Recusar a culpa é um gesto de despatriarcalização da própria história.

Esta carta não é apenas sobre mim.

É sobre todas as mulheres cujos projetos foram interrompidos com carimbo, parecer e silêncio.

É sobre todas que ouviram, sem que ninguém dissesse:

“isso não é lugar para você.”

A violência não prescreve.

Mas a consciência também não.

E enquanto houver mulheres nomeando o que lhes foi feito,

a estrutura não poderá mais fingir neutralidade.

Esta carta é memória.

É denúncia.

É recusa.

E é também uma forma de dizer:

não nos apagaram.

Estamos aqui.

Com marcas.

Com lucidez.

Com história.

Minha permanência consciente é a forma mais alta de insubmissão.



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