
GRILEIROS E JAGUNÇOS
(Fotolegenda: “Sob a sombra das frondosas árvores, homens se enfrentavam e morriam na defesa de um pedaço de terra” (Vander Piaia, 2013). Citação e fotografia extraídos do livro “Terra, sangue e ambição - a gênese de Cascavel”. No resgate da vítima, com a maleta, o médico legista Moacyr Jorge.)
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A partir da década de 1940 surgiram no Oeste paranaense os jagunços, encarregados de “limpar a terra”, ou de expulsar posseiros que residiam em áreas que interessavam a homens de posses ou a suas empresas. A ordem de despejo muitas vezes vinha de lugares distantes.
“Os proprietários responsáveis por essas “limpezas” impiedosas podem nem mesmo saber onde “suas” terras estão situadas, o que serve para demonstrar como esses conflitos que são, em sua maioria, gerados fora da região, somente encontram expressão violenta dentro da região, onde casas são queimadas, animais são mortos, as mulheres violentadas e os homens assassinados”. (Joe Foweraker, 1981)
Inicialmente os posseiros recebiam visitas dos pistoleiros, insinuando que deveriam abandonar a propriedade. Se a família não tomava a atitude esperada, nova visita ocorria à noite. Ouviam-se tiros e os caboclos viam-se tomados de pavor. Em muitas ocasiões a casa era incendiada.
A maioria dos posseiros desconhecia a lei e seus direitos adquiridos sobre a terra. Diante das ameaças, a melhor opção era vendê-la pelo baixo preço oferecido. Se decidiam ficar, os jagunços “matavam e enterravam” (João Scherlowski, depoimento a Vander Piaia, 2002).
Os moradores pretendiam apenas trabalhar e progredir com o fruto do seu suor, mas eram obrigados a conviver com as notícias de assassinatos, e até mesmo a presenciar alguns.
“Dona Lídia Luchesa conta que cada vez que matavam alguém na frente da Comercial Oeste (Copal), ela corria a colocar um crucifixo entre as mãos do baleado para a extrema-unção. Em pouco tempo acabou com o estoque de crucifixos de sua casa e do armazém”. (Xiko Tebaldi, Folha de Londrina)
Em entrevista a Sperança (1980), o advogado Ezuel Portes afirma que “os jagunços não passavam de pessoas humildes, chefes de família, que, na falta de outro emprego, aceitavam a incumbência de portar uma arma ostensivamente e passar por perigosos pistoleiros. Na realidade, alguns, muito poucos, eram sanguinários e cruéis, matando quase sempre à traição”.
Também agiam como jagunços alguns policiais à paisana, fora do horário de expediente. Eram denominados mata-paus.
Ao chegar em Cascavel, as famílias sulinas encontravam um aglomerado de casas, sem qualquer organização social. Havia somente um pequeno grupo escolar e uma capela. Muitos traziam documentação de terras que já estavam ocupadas por antigos moradores. “Os banhos de sangue foram memoráveis nessa época”, aponta Anselmo Cordeiro.
“As maiores lutas ocorreram justamente onde o Estado considerava as terras devolutas, uma terra de ninguém que era terra de todos, e cujo epicentro era a cidade de Cascavel. (...) A violência pela terra atraía a população, conquanto a lógica comum poderia pensar que este é um aspecto poderoso o suficiente para barrar e mesmo expulsar a população”. (Piaia, 2010)
Apesar de todos os conflitos envolvendo posse e documentação de terras, o crescimento da cidade foi rápido no período 1940 - 1960. Mas Cascavel manteve durante muito tempo sua fama de terra sem lei.
Os posseiros nem sempre aceitaram as imposições dos grileiros e a violência dos jagunços. O historiador Alceu Sperança (1994) conta que em Três Barras eles fizeram uma lista dos “elementos estranhos” que deveriam morrer. Alguns jagunços tiveram os dentes arrancados, as orelhas cortadas, e seus corpos restaram dependurados em galhos de pinheiro. Em vários povoados os posseiros também sublevaram-se contra os desmandos policiais, solicitando a intervenção do Exército.
“Eu andava ostensivamente com o revólver no coldre, amarrado embaixo da perna, à moda antiga do velho oeste, andava com um colete de couro, calça jeans, camisa comprida, eventualmente de chapéu (...). Armei-me muito bem com o revólver Schmidt, cano longo, cabo de madrepérola, revólver 38 que ganhei de meu pai. Fui para o Cinco Mil com mais 8 homens, que eu juntei na região, fui até a delegacia, em Palotina. Lá eu peguei mais cinco e fomos em treze homens, num trator de esteiras e procedemos à desocupação da terra com um tiroteio e o pessoal que estava lá (...) não aguentaram a parada e saíram”. (José Bolívar Bretas, advogado, citado por Miskiw, 2002)
“Eu sabia que iam fazer com o José como fizeram com outros homens que castraram e mataram com facão. Cortaram o seio da mulher e arrancaram os olhos da criança (...). Depois foram no nosso vizinho, pediram chimarrão. Quando ele foi entregar a cuia, recebeu um tiro de espingarda no rosto. Acabaram de matar lá no Cristóvão. Foi no dia 1º de dezembro de 1956. Ninguém queria levar o corpo pra enterrar. Eu e minha sobrinha fomos arrumar”. (Romilda Hísse, Tupãssi, citada por Miskiw, 2002)
“No tempo que comecei (a trabalhar como alfaiate), passei muito apuro, de enfrentar dois ou três bandidão na época, no salão, de tirar revólver, dar pra eu guardar, às vezes com dois na cinta, não cabia na cadeira pra sentar, tirava as armas e botava em cima do balcãozinho pra cortar o cabelo, aí chegava outro, se encontravam por ali (...) depois se encontravam nas estradas, no outro dia a gente ia saber, mataram fulano, quem matou? Foi fulano, Ah, eu lembro, estavam aqui ontem. (...) Depois era chamado no Fórum como testemunha. Aí chegou o tal de Bota Seca, que foi morto. Correu atrás do cara, pegou na laçada, derrubou no chão, o cara tava com o revólver, puxou, atirou debaixo do queixo, caiu morto em cima dele, aí queriam que eu contasse, mas como eu iria contar, se não vi? O começo foi lá no salão, mas depois que saíram lá pra fora não sei de nada”. (Dirceu Tfardoski, projeto Memória Viva, 2009)
Ao final da década de 1960, quando os jagunços passaram a ser combatidos pela polícia estadual, o Diário d’Oeste bradava: “A lei impera aqui e temos certeza de que jamais voltarão a ser repetidos aqueles capítulos de outrora, quando éramos tão tristemente famosos”.
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DOIS CRIMES NUMA NOITE
O engenheiro Ciro Bucanera chegou a Cascavel num avião das Linhas Aéreas Real, em 1955. Entrando no hotel Mariluz, de Dona Maura, estava subindo a escada em direção à portaria quando viu um cadáver rolando em sua direção. O motorista de táxi que conduzia o visitante exclamou: “É... mais um!”. Bucanera saiu dali e foi hospedar-se no hotel Americano. Na mesma noite, fazia um lanche num bar quando chegou um rapaz. Pediu duas xícaras de café e ofereceu uma delas à garçonete. A garota virou-se para seu avô, que cuidava do caixa, e contou a ele a atitude do freguês. O avô saiu detrás do balcão com uma peixeira e golpeou o freguês no peito, levando-o à morte.
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