Hoje Macau / Dicionário do Socialismo com Características Chinesas: editado no Brasil, livro tem Stédile como co-autor

Hoje Macau / Dicionário do Socialismo com Características Chinesas: editado no Brasil, livro tem Stédile como co-autor
02/06/2026

Miguel Enrique Stédile, académico

Acaba de ser editado no Brasil, pela Expressão Popular, o “Dicionário do Socialismo com Características Chinesas”, de autoria de Miguel Enrique Stédile, Julián Bokser, Diego Pautasso e Javier Vadell. O co-autor Miguel Enrique Stédile explica que a obra apresenta “uma pluralidade de visões sobre a China desde a América do Sul”. Já há planos para uma segunda edição

Porquê editar este Dicionário e quais os principais conteúdos que são mostrados ao leitor?
Nos últimos anos tem havido um crescente interesse pela China no Brasil e na Argentina, tanto pelo público académico, quanto pelo leigo. Entretanto, a literatura publicada localmente ainda é insuficiente para dar conta de todas as dimensões da experiência chinesa. Então, a partir da necessidade de uma obra de referência que permitisse ao leitor ser introduzido rapidamente a alguns conceitos e questões-chave, apresentamos o Dicionário, uma obra que permite aos pesquisadores brasileiros e hispano-falantes contarem com um livro que reúna num só local estas questões mais frequentes. O dicionário reuniu mais de 70 pesquisadores brasileiros e argentinos, com uma pluralidade de visões sobre a China desde a América do Sul.

Que China nos é contada neste livro? É dado maior foco à mudança económica do país, na sua abertura ao mundo, por exemplo?
Sim. Seria impossível escrever em pouco tempo um dicionário sobre a cultura ou a história chinesa, por exemplo. Optámos então por um dicionário de questões políticas, económicas e sociais. Evidentemente, há um conjunto de questões que remetem ao início da Nova China, mas concentramo-nos também em questões mais contemporâneas para que o leitor possa compreender um pouco mais do que se trata o país que emerge da Reforma e Abertura.

Como se pode olhar para a evolução do “Socialismo com Características Chinesas”, sobretudo a partir dos anos 80? Podemos falar de Deng Xiaoping como um dos seus teóricos?
A trajectória chinesa desperta muito interesse e eu diria até inspiração aos países do chamado Sul Global, porque assistimos a um país que enfrentou guerras civis, invasões estrangeiras, a saída de uma condição de precariedade para o topo do PIB [Produto Interno Bruto] global. Evidentemente, os papéis de Mao Zedong, Zhou Enlai e desta geração revolucionária sã imprescindíveis sem os quais não haveriam as bases para que a geração seguinte pudesse assentar as transformações. Da mesma maneira, Deng [Xiaoping] é um personagem importantíssimo. Mas quando olhamos a trajectória em perspectiva histórica, percebemos que o grande protagonista é o povo chinês. Por melhores iniciativas que seus líderes tenham, elas só se transformam em realidade, quando o povo as compreende e agarra.

Quais as mudanças trazidas pelo governo de Xi Jinping a este modelo governativo?
Creio que o período actual com o Presidente Xi é interessantíssimo e, por si só, tem nos dado muitos motivos para pensarmos numa segunda edição ampliada. O Governo do Presidente Xi coincide com uma grave crise económica mundial, a pandemia global e a crise climática, e neste contexto, a China consegue não apenas se posicionar de forma a enfrentar estas crises, como apresenta caminhos que poderiam ou deveriam ser seguidos por outras nações. Acho que há muitas contribuições inovadoras neste período actual sobre a civilização ecológica, a inovação e mais recentemente sobre a questão da soberania digital e a Inteligência Artificial, além da erradicação da pobreza extrema.

Qual a importância de editar esta obra no Brasil, tendo em conta o relacionamento do país com a China?
Estamos publicando simultaneamente no Brasil, pela editora Expressão Popular, e na Argentina, pelo editorial Batalla de las ideas. Creio que, ao mesmo tempo em que suprirá uma pequena parte da grande lacuna que temos em relação ao conhecimento da China, despertará o interesse para que outros pesquisadores produzam mais sobre estes temas. Mas, espero, em especial, que sirva como um convite para os nossos colegas académicos procurarem mais parceiras de intercâmbio científico e tecnológico com a China e que aproximem os nossos países de formas mais significativas e cooperadas, para além das volumosas relações comerciais que os nossos países possuem.

Ana Maria Saldanha escreve sobre Grande Baía, Macau e Hong Kong

O “Dicionário do Socialismo com Características Chinesas” conta com a colaboração de Ana Maria Saldanha, ex-professora universitária em Macau e docente na Universidade Normal de Hunan, sendo esta uma das autoras juntamente com nomes como Julián Bosker, Diego Pautasso ou Javier Vadell, entre outros.
Na entrada do dicionário “Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau”, Ana Maria Saldanha descreve como esta região é “frequentemente comparada ao Vale do Silício devido à sua importância económica e tecnológica”, sendo “uma iniciativa de desenvolvimento estratégico da China”.
Lê-se ainda que o “projecto visa integrar e reforçar a cooperação económica e tecnológica entre as nove cidades da província de Guangdong” e as regiões administrativas especiais, tratando-se de um “ambicioso projecto de desenvolvimento económico e de cooperação regional”. Através da Grande Baía, Pequim pretende “transformar a área numa das mais dinâmicas e inovadoras do mundo, competindo com regiões como as baías de São Francisco, Tóquio e Nova York”.
Ana Maria Saldanha recorda como, em 2015, “a Comissão Nacional para o Desenvolvimento e Reforma, o Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Ministério do Comércio (da República Popular da China) divulgaram o documento ‘Visões e Acções para Promover a Construção Conjunta da Faixa Económica da Rota da Seda e da Rota Marítima da Seda do Século XXI”, tendo-se definido aí a “Construção da Grande Baía Guangdong, Hong Kong e Macau”.
Nesta entrada do dicionário é também referido que “o apoio estatal tem desempenhado um papel crucial neste processo de integração regional graças aos investimentos maciços em investigação e desenvolvimento”, sendo que a China “estima que o desenvolvimento da inovação e da tecnologia impulsiona a economia, melhora a qualidade de vida e cria empregos de qualidade”.
Ainda assim, a autora destaca como embora “as oportunidades de desenvolvimento sejam vastas, a região enfrenta desafios, decorrentes da existência de diferenças entre os sistemas jurídicos e económicos de Hong Kong e de Macau em relação à China continental”. Porém, “os objectivos pretendidos estão a ser alcançados: o Governo Central tem conseguido manter uma estreita conexão entre as regiões administrativas especiais e o restante território da província de Guangdong, num contexto em que a estabilidade regional é considerada de suma importância”.
Ana Maria Saldanha acrescenta ainda que a região da Grande Baía “é uma iniciativa ambiciosa que visa capitalizar sinergias regionais”, além de aspirar “tornar-se um centro de inovação científica e tecnológica” na promoção “do empreendedorismo” e atracção de “quadros especializados, local e internacionalmente”.
“Ainda que existam obstáculos, nomeadamente em razão de disparidades políticas e socioeconómicas, a região tem um forte potencial para se estabelecer como líder mundial em inovação e desenvolvimento sustentável”, lê-se ainda.

Simplificar conceitos

Em informação oficial difundida pela editora Expressão Popular nas redes sociais, a propósito do dicionário, lê-se que o “socialismo chinês desenvolveu conceitos próprios para responder aos desafios da modernização, da soberania e da construção socialista”.
A ideia é levar o leitor a compreender conceitos fundamentais como o desenvolvimento económico do país, a “experiência socialista contemporânea”, a “Reforma e Abertura”, que se iniciou com Deng Xiaoping a partir de 1978; e ainda o papel do Estado. O livro constitui, assim, uma síntese do “vocabulário político, económico e histórico a partir da experiência da Revolução Chinesa até aos dias actuais”.


FONTE: Hoje Macau (hojemacau.com.mo)

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