UM FILME INGLÊS EM PARIS - João Batista de Brito

UM FILME INGLÊS EM PARIS - João Batista de Brito
24/08/2024

UM FILME INGLÊS EM PARIS

João Batista de Brito


A manhã estava fria e Jorge acordou tarde. A cama estava vazia e Zélia – pensou – devia estar na cozinha. Fez menção de ir ao banheiro assim, de pijama, e só então lembrou onde estava: nesse maldito hotel de banheiros coletivos.

Pomposo no nome, o Grand Hotel Saint Michel, não tinha nada de pompa: um prédio velho, meio sambado, que abrigava gente em dificuldade, como ele mesmo. Era Paris, sim, mas não a Paris dos turistas.

Foi à cozinha, tomar água, mas nem sinal de Zélia, que, a essa altura, - ele deduziu - devia estar pechinchando nas barracas da feira livre.

Trocou-se, tomou o corredor, em direção aos banheiros, por sorte naquele horário da manhã, já sem filas. Em seguida, desceu as escadas, que elevador não havia, e tomou o rumo da rua. Tomaria o café da manhã num bistrô qualquer, e, enquanto caminhava, como sempre, os problemas o seguiam.

Estavam em Paris já fazia dois anos e só Deus sabia que futuro os aguardava. Voltar ao Brasil, por enquanto, nem pensar. A sua Bahia querida estava ficando cada vez mais longe. Seu mar, suas igrejas, seus candomblés, sua capoeira, seus acarajés,... pareciam coisas fantasiosas, imaginárias.

Nesse governo Dutra, o Partido Comunista Brasileiro, pelo qual fora eleito deputado federal, havia sido sumariamente extinto, seus membros perseguidos. A ele restou o exílio. A ele e à família: a esposa, Zélia, e o bebê João Jorge.

O sustento vinha dos livros, sete já publicados, com boa recepção de crítica ou, quando não, de público, e, eram os direitos autorais que não lhe deixavam morrer de fome nas calçadas de Paris, como via acontecer com criaturas mais desafortunadas.

No seu caso havia ainda os bicos, como os roteiros que, graças ao intermédio de amigos, inventava para as chanchadas da Atlântida, e enviava pelos Correios. Afora isso, o pai, vez ou outra, lhe mandava alguma grana extra, que, no caso, usavam para manter uma babá, luxo necessário para o bebê João Jorge, já que Zélia também era uma mulher ocupada.

Claro, viver em Paris tinha suas vantagens. Uma delas, o contato com gente famosa, como Picasso. Até o intransponível Sartre já lhe dirigira a palavra. E desse contanto, podiam eventualmente advir oportunidades preciosas.

Um entrave era a língua, que não falava e tinha dificuldade para assimilar. E disso precisava muito, inclusive para negociar com as editoras a melhor a distribuição de sua obra. Chegou a contratar uma professora de francês, porém, as aulas eram caras, e terminou desistindo do curso particular, para aprender no dia a dia. Ficava mais barato.

Enquanto mastigava o café da manhã no bistrô mais próximo, pensava no ocorrido da noite anterior. Zélia teve a ideia de irem ao cinema, coisa que não lhe apetecia muito, salvo se se tratasse de um filme russo, ou de Buñuel, ou então, de Chaplin. Mas topou.

Era um filme inglês de um diretor desconhecido. Não entendeu o título original, “Blithe spirit”, mas o francês até para ele era fácil, “L´esprit s´amuse”, ou seja, o espírito se diverte. E o espírito era mesmo uma alma do outro mundo.

Em tom de comédia, contava a história de um casal londrino, muito bem casado, até que um dia a alma da falecida ex-esposa do cara, começava a lhe aparecer, e terminava por transformar a vida do casal num inferno.

O filme era britânico demais para seu gosto, apesar do gênero cômico, fleumático até dizer basta. Decididamente, não gostou, e no entanto, o tema lhe chamou a atenção: um casal importunado por um ex-cônjuge falecido. No balcão do bistrô, tirou seu caderno de notas da pasta e anotou o tema.

Depois disso, esqueceu tudo, filme e anotação. Até um certo dia em que Zélia voltou a falar em cinema. E ele, então, se referiu ao filme inglês visto, alegando que não queria ver outra porcaria daquela. E foi aí que lhe veio a lembrança da anotação que fizera, e então confidenciou à esposa, que o tema daquele filme, sim, lhe interessava – quem sabe podia dar um bom conto ou coisa maior. Relembrando o filme, Zélia foi adiante e sugeriu que a história da alma conjugal reaparecendo dava até um romance – mas ficaria melhor se o espírito brincalhão não fosse o da ex-esposa, e sim o do ex-marido da mulher.

Ele gostou da ideia, e Zélia, divertida, prosseguiu: Já imagino até o título, disse ela, rindo: “Os dois maridos de Rosa”. Ou então: “Dona Rosa e seus dois maridos”, alguma coisa assim. E não parava de rir. Aderindo ao riso da esposa, Jorge sugeriu que “Flor” seria melhor que “Rosa”. E, por via das dúvidas, tirou o caderno da pasta e fez essa nova anotação.

Anotação feita, demorou vários anos para voltar a ela. Mas, como se sabe, voltou.


FONTE: Facebook

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