
APRENDIZADOS
João Batista de Brito
Já na infância eu percebia que o mundo era dividido entre pobres e ricos, e que havia muito mais pobres que ricos. Mas, tardio como sou, até a adolescência nunca me ocorrera que isso pudesse mudar. Nem sequer que tivesse alguém tido um dia a ideia de mudar isso.
No meu entender, os meus colegas ricos do Colégio Lins de Vasconcelos iam sempre ser ricos, porque assim nasceram, e eu ia sempre ser pobre, porque assim nascera. Não havia como remediar, nem adiantava lamentar... O que restava fazer, se não me deter naquilo de que gostava e deixar o resto pra lá? E o de que eu gostava era cinema, literatura e línguas.
Com vergonha confesso que, na inocência dos meus dezesseis anos, nunca ouvira falar em lutas de classe, injustiça social, exploração de mão de obra, ou coisas assim. Lá em casa talvez chegassem ecos remotos de Cuba e das vizinhas Ligas Camponesas, mas pra mim, aquilo tudo era coisa vaga, notícia de rádio...
Ironicamente, foi a partir de abril de 1964, com o golpe militar que tomou o poder no país, que comecei a ter ouvidos para possibilidades de mudanças sociais. E as primeiras manifestações de protesto que me apareceram foram, sem coincidência, nas salas dos cinemas. Naquele tempo, antes da projeção do filme, se mostravam as “naturais”, com o noticiário dos acontecimentos recentes no país. E toda vez que aparecia na tela a cara achatada de Castelo Branco, a vaia estrondava. Eu nunca vira ninguém vaiando Jango, nem mesmo Jânio Quadros, muito menos Juscelino Kubitschek, de modo que essas vaias começaram a me indicar que havia algo errado no rumo que o país estava tomando. Dessa vaga inquietação para as conversas esclarecedoras com amigos mais informados foi um pulo.
Claro que a mudança do Lins para o Liceu Paraibano foi decisiva, neste aspecto. Influenciado por amigos, daí a pouco eu já estava lendo Marx e adjacentes. Mas, com estas leituras, outras vieram junto: livros que tratavam da arte literária e do cinema como arte - uma novidade pra mim, e, confesso, novidade especialmente atraente.
Assim, enquanto aprendia sobre as questões de ordem social e política, não abria mão de meus interesses mais, digamos, artísticos, e, com o tempo, isso foi resultando numa espécie de situação dúbia, ambígua, meio bipolar, com que tive que lidar por algum tempo. Entregar-me à problemática socio-política, ou dedicar-me ao estudo da literatura e do cinema? Confuso, fui driblando essa dubiedade como pude...
Nesse tempo de leituras inaugurais fui, meio por acaso, introduzido a obras de carácter teórico que começaram a descortinar pra mim um território fascinante, que, por falta de termo melhor aqui denomino genérica e precariamente de “interpretação”. O fato é que eu não queria apenas consumir arte: queria responder a ela. E esses livros teóricos me ensinavam como...
Por exemplo, antes eu já lia a crítica de cinema que se publicava nos jornais locais, e gostava, porém, nos livros eu encontrava muito mais profundidade e consequência interpretativa. O segredo - comecei aos poucos a perceber - estava no embasamento teórico que esses livros ofereciam. E o que valia para o cinema, valia também para a literatura. De repente, ler um poema, com toda uma teoria da linguagem por trás, passou a ser uma coisa nova e muito mais rentável.
De todo jeito, aqui e acolá acontecia de envolvimento político e interesse estético se chocarem. E passei por algumas situações extremas em que tive que fazer opções. Uma delas foi quando um amigo – membro do Partido Comunista – me intimou a participar do Congresso de Ibiúna, em São Paulo, e, acabrunhado, tive que lhe dizer não. Em compensação, disse sim a um colega de turma que, por ser uma figura visada, me pediu para guardar, em minha casa, um envelope grosso: era toda a papelada para seu ingresso no PC, eu sabia que era, e, mais por ingenuidade que por heroísmo, guardei esses papéis por quase um ano.
Ironicamente (de novo), o que me livrou da tal dubiedade referida foi o famigerado AI-5. Depois dele instaurado, sem alternativas para nada que fosse de natureza minimamente política, aproveitei a fluência em inglês e entreguei-me pecaminosamente à leitura solitária e culpada de escritores anglo-americanos que eu admirava. Com os auspícios de um amigo e ex-professor de literatura, entreguei-me (sem esquecer os autores brasileiros, naturalmente!) a Hemingway, Fitzgerald, Faulkner, Shakespeare, etc...
Ironicamente (mais uma vez), foi essa atividade escusa e culpada que me proporcionaria, tempos depois, uma profissão: a de professor de literatura anglo-americana no Curso de Letras da Universidade Federal da Paraíba – profissão que exerci até a aposentadoria.
Com o amadurecimento, apaziguei meu espírito supostamente dúbio de aprendiz com a ideia reconfortante de que, no fundo dos fundos, toda arte, onde quer que seja produzida, é política.
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