CAMINHANTES - João Batista de Brito

CAMINHANTES - João Batista de Brito
14/01/2025

CAMINHANTES

João Batista de Brito

Todo começo de verão a Paraíba, com sua bela orla, vira turística.

De minha parte, recordo o tempo remoto em que os desbravadores desse litoral éramos nós mesmos, digo, eu e um grupo de amigos.

Sim, naqueles bons tempos, primeira metade dos anos 70, saíamos de Jaguaribe, eu e alguns amigos, sempre a pé, em direção ao litoral mais próximo e, de lá, com o sol despontando, seguíamos a orla, sempre pela beira mar, com as sacolas nas costas e os pés na areia.

Geralmente saíamos de casa à meia noite, de forma a alcançar o litoral com o dia prestes a nascer. Carregando os matulões nas costas, a caminhada era relativamente lenta, pois não tínhamos compromisso de chegar em hora marcada. A única hora marcada dizia respeito à maré, pois sabíamos que dela dependia a travessia dos chamados maceiós, aquelas desembocaduras de rios pequenos – como o Paratibe, por exemplo – que davam passe livre no horário da maré baixa, mas que se tornavam intransponíveis ao tempo da maré alta. Como se sabe, são seis horas entre as duas marés, e isso precisava ser respeitado. Algumas vezes perdemos um tempão às margens de um maceió, esperando o momento de cortá-lo sem perigo.

O destino da caminhada podia ser o norte ou o sul, a depender da ocasião. Se norte, o final podia ser Baía da Traição; se sul, Pitimbu. Isto, ida e volta, o que durava dois ou três dias. Estas eram as caminhadas mais longas, mas também houve muitas outras em percursos menores, digamos, só até Gramame, ou só até Miriri, para passar o dia.

De todo jeito, fosse qual fosse a distância a percorrer, a regra – rigorosamente cumprida – era fazer a trajetória a pé, sem nunca tomar transporte algum. A não ser que fôssemos forçados, como ocorria quando chegávamos a uma desembocadura de grande extensão, que só se atravessava de barco, ou canoa.

Nunca esqueço a perigosa travessia da tremendamente vasta foz do rio Mamanguape, numa canoa à vela (isto mesmo!), cambaleante entre duas forças contrárias, as águas do rio e as águas do mar, o canoeiro remando enquanto molhava a vela, que o vento nem sempre empurrava na direção pretendida. De um lado, o marzão bravio, do outro, o rio revolto, os dois brigando e a gente no meio, rezando pra tudo dar certo.

Entre 1971 e 1976, não sei quantas caminhadas litorâneas fizemos, mas sei dizer que Gramame, por exemplo, virou um caminho de roça para a gente. De tal modo que os viventes do lugarejo Mussu Mago, que nos viam passar tantas vezes, se acostumaram com aqueles “estudantes amalucados” que às vezes paravam para um refrigerante com bolacha.

Não existe, portanto, uma única praia em todo o litoral paraibano (de Camaratuba a Acaú) em que não tenhamos posto os pés, ainda que só de passagem. Muitas eram praias selvagens, desertas, cujos nomes desconhecíamos, embora sempre tivéssemos o cuidado de procurar eventuais moradores – geralmente pescadores isolados – para perguntar onde estávamos.

Camurupim, Jacarapé, Camaratuba, Miriri, Paratibe, Arraial, Graú, Abiaí, Camaçari, Acaú... passaram a ser nomes familiares no nosso vocabulário do dia a dia, mais do que aqueles que todo mundo conhece e que não vejo necessidade de citar. Mas cito, sim, Tambaba, hoje tão famosa, e que, na época era, para nós, só mais uma praia deserta e selvagem, não mais nem menos bela que as outras que trilhamos tantas e tantas vezes.

Naquele tempo, caminhar era tranquilo, mas, vez ou outra, nos deparávamos com coisas estranhas. Numa dessas praias sem nome – em algum ponto do litoral norte, entre Miriri e Camurupim – íamos andando quando avistamos, lá longe, uma enorme montanha negra à beira mar, bem destacada pelo contraste com a brancura da areia e o verde das ondas. O que fazia ali aquele monte escuro tão estranho à paisagem? Na medida em que nos aproximávamos, o mistério ia sendo desvendado. De repente, a montanha foi se fragmentando em pequenos pedaços e esses pedaços voaram para o céu e... Mais de perto vimos: eram milhares de urubus posados sobre o corpo inerte, mas ainda quase íntegro, de uma baleia que, ninguém sabe como, viera morrer em terra. Em momentos assim eu, pessoalmente, sentia falta de uma máquina fotográfica.

Enfim, por que, na época, essa nossa busca tão radical da natureza? Não sou sociólogo, mas arrisco. A nossa geração vinha de uma década – anos sessenta – muito politizada, mas que fora obrigada pelo AI-5 a calar o bico. No meu entender de hoje, essa fuga para a natureza foi uma saída pela tangente, que a palavra “ecologia” designaria, se a palavra na época já fosse conhecida. Acho sintomático demais que, nas nossas estantes caseiras, tivéssemos aposentado os Marx e Politzer da vida, para passarmos a ler quem? Sim, Krishnamurti, um pensador místico e apolítico cujas ideias reconfortantes discutíamos amiúde, enquanto caminhávamos, sorvendo o ar puro, pisando as areias virgens e fitando o verde-azul do horizonte.


FONTE: Facebook

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