ELA FOI EMBORA - João Batista de Brito

ELA FOI EMBORA - João Batista de Brito
31/01/2025

ELA FOI EMBORA

João Batista de Brito


Abri os olhos, espreguicei-me, respirei fundo, e me virei de lado para curtir só mais um pouquinho a maciez da cama.

Foi aí que vi. Ela não estava do meu lado. Ela que sempre acordava depois de mim. Bem depois.

Tudo bem. Devia estar no jardim, tomando sol, ou na cozinha, beliscando alguma fruta.

Lutando contra a preguiça, levantei-me, troquei de roupa, e saí do quarto no encalço dela. Na cozinha não estava, nem no jardim, nem no quintal, nem em parte alguma da casa. Estranho.

Será que fora caminhar no quarteirão? Ou tomara o rumo da praça do bairro, ou talvez mesmo da praia? Fosse o que fosse, era estranho: ela nunca fazia isso. Pelo menos sem me avisar, não.

Sem respostas, tomei meu banho de sol habitual, depois o de chuveiro, fiz o café de costume, e me dirigi ao gabinete.

Sentei-me diante do computador, com a intenção de escrever minha crônica semanal, mas não saía nada. E eu sabia: sem ela, não conseguiria escrever uma única palavra, muito menos um texto.

Tristonho, deixei a manhã passar, na esperança de que, de repente, ela poderia voltar. Na verdade, passei o resto do dia nessa angústia, esperando que ela batesse no portão, de volta para o meu espírito limitado.

E nada. Uma vez bateram no portão: era o rapaz da Energisa, com a conta da luz, aliás altíssima. Outra vez foi a catadora de lixo, que pegou o vício da minha ajudinha. Outra vez foi o motoboy, para entregar um livro que eu pedira à Livraria do Luiz, a Antologia de Luiz Fernando Veríssimo.

Mas, dela nem notícia.

Pois é. Dona Inspiração fora embora e me deixara assim, vazio, perdido, inútil.

Por que será que Dona Inspiração me abandonara, assim, sem mais nem menos, nessa quinta-feira ensolarada, justamente o dia em que mais preciso dela, o dia em que redijo minha crônica da semana para o Facebook? Por que desaparecera daquele jeito, sem aviso prévio? Pura falta de consideração. Ou de misericórdia. Ela sabia muito bem que os meus leitores me aguardavam. Sabia que eles iriam estranhar se, na sexta-feira, bem cedo da manhã, não recebessem a notificação da minha crônica.

Por certo Dona Inspiração deve estar achando – e é direito dela achar o que quiser - que não vale a pena ficar trancado em casa, a bunda pregada numa cadeira, a vista míope focada numa tela de computador, fazendo esforços mentais e físicos para redigir os textos pretensiosos que redijo, textos que passem a impressão de que sou inteligente e criativo.

Imagino que a essa altura, alheia ao seu métier, ela deve estar curtindo o mundo lá fora, faceira, maliciosa, cheia de si, gozando de sua folga auto imposta, e das limitações do meu espírito, que, coitado, sem ela não funciona. Com certeza está onde nem precisam dela.

Daqui onde estou, espremido entre as minhas paredes, eu até a vejo, ao ar livre, por exemplo, nas areias de Tambaú, passeando divertida, ao meio da multidão de banhistas, gente descontraída que, o sol na cara, toma suas cervejas com tira-gosto, sentindo o vento e o sal na pele, fitando o marzão a sua frente. Gente sem comichões literários, que sabe curtir a vida. Com a vantagem de que, entre essa gente feliz, Dona Inspiração não precisa trabalhar. Pra quê?

Enfim, seja onde for que ela esteja, aos meus leitores do Facebook, peço desculpas pela falha, e prometo que, se a sorte me proteger e Dona Inspiração porventura se dignar a voltar ao meu pobre aconchego, na próxima semana vocês terão o que ler.

Aguardemos.


FONTE: Facebook

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