
Neste 8 de março, penso não ser descabido reprisar esta crônica:
IN MULIERIBUS
João Batista de Brito
Sempre vivi entre mulheres. Mais mulheres que homens.
Lá em casa eram oito mulheres – cinco irmãs, mãe, avó e uma prima agregada. Os dois irmãos eram mais velhos e, por causa da diferença etária, com eles não partilhei muito de minha infância, nem adolescência.
Estudei em colégio masculino, mas só até o ginásio, pois, no secundário fiz o Curso Clássico, onde havia mais moças que rapazes. Depois fiz os cursos de Letras (Português, Francês e Inglês) onde as mulheres predominavam.
Na Universidade fui, por trinta e cinco anos, professor no DLEM, departamento de letras estrangeiras modernas, onde oitenta por cento dos colegas vestiam saias, percentual aproximado podendo ser dito do alunado do curso.
Tais circunstâncias me levaram a ter, ao longo da vida, tantas amigas quanto amigos. Amigas com quem troco confidências como faria – e faço – com irmãs. Se isso me influenciou? Claro que sim.
Apesar de criado e educado debaixo do machismo estrutural da nossa sociedade, acho que, querendo ou não, desenvolvi uma atitude de identidade e consequente cumplicidade para com a problemática feminina.
Se não for muita pretensão de minha parte, suspeito que, lá no fundo do meu espírito, subjaz um filete feminino, que conservo com carinho e orgulho. Até porque nunca me identifiquei com a farsa hegemônica do machão que arrebenta tudo, nem meu físico franzino a comportaria. Muito menos minha cabeça, coitada, povoada de hesitações, inseguranças, temores ... e sonhos.
Bem entendido, produto do nosso meio, não digo que esteja isento de atitudes machistas, mas se e quando me ocorre cometê-las, o coro de vozes femininas que me orbita acusa, e então, humildemente, me apresso em revisar algum gesto impensado.
Quando o gesto é alheio, o efeito é igualmente desagradável. Se estou conversando com um amigo (sobretudo, se for alguém que admiro e respeito) e dele escuto uma boutade em que as mulheres aparecem como inferiores, isso me dói como se eu fosse uma. Não me agrada ouvir a boutade, mas, por outro lado, me agrada sentir a dor: medida da minha discordância.
Desconfio que essa proximidade física e espiritual com as mulheres influiu nos meus gostos, com certeza em minhas predileções temáticas.
Acho que não é gratuito que a literatura ficcional que mais aprecio seja a do Século XIX. Uma literatura não de heróis, mas de heroínas – figuras trágicas, é verdade, mas sempre heroínas.
Refiro-me a personagens como Ana Karenina, Madame Bovary, Hester Prynne (de “A letra escarlate”), Luísa (de “O primo Basílio”), Capitu (de “Dom Casmurro”). Tudo bem, são romances escritos por homens, mas, nesses livros – vamos convir - os homens são menores. A isto posso muito bem acrescer as mulheres de Jane Austen, ou – um caso todo particular – a imensa persona poética de Emily Dickinson.
A mesma coisa com o cinema, onde alguns dos meus grandes personagens amados são também femininos – da prostituta de “Noites de Cabíria” à dona de casa de “Desencanto”, passando pela mãe negra de “Imitação da vida”, pela jovem solitária de “Pai e filha”, pela matrona de “Rocco e seus irmãos”... e por tantas outras.
Até num gênero supostamente masculino e machista, como o western, descubro o feminino.
Exemplos sintomáticos são os meus três faroestes mais amados – “Matar ou morrer”, “Os brutos também amam” e “O homem que matou o facínora”, que, se olhados mais a fundo, se revelam – apesar dos tiroteios e pancadarias – três belas histórias de amor onde as figuras femininas são decisivas.
Até porque, por feminino não entendo só delicadeza.
Penso também em força, pois, por experiência própria, sempre achei as mulheres mais fortes que os homens. Criaturas mais naturalmente preparadas para o turbilhão que é a vida. Com certeza, biologicamente mais treinadas para o sangue e a dor. E, segundo constato, mais aptas a dar as voltas por cima. E, por isso mesmo, talvez mais sábias.
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