O TAMBOR DE CRIOLA - por Raimundo Silva

O TAMBOR DE CRIOLA - por Raimundo Silva
26/11/2025

TAMBOR DE CRIOLA. Por Raimundo Silva.

Em tempos difíceis, o melhor que faço é falar de amor, ou melhor, escrever sobre amor, ou melhor ainda, narrar, ainda que de forma breve, uma comovente história de amor. Tudo aconteceu, há umas quatro décadas atrás, quando passava por Codó, Maranhão para conhecer uma das tradições mais ricas deste estado conhecida como Tambor de Criola, um som que ecoa forte em todos os becos de Codó onde existe um terreiro de umbanda. Chamava-se Manoel, um homem alto e forte com 65 anos bem vividos, segundo ele. Pois foi ele, que me falou de seu amor por uma mulher muito mais nova, 22 anos, que tinha partido para São Paulo. Triste partida, me dizia ele, cuja tristeza era a mais acabada tradução de um coração dilacerado pela dor. Eu ouvia atento e pensava sobre a beleza e a força do amor, esse sentimento que nos atravessa e arrebata, como atravessa mares, desertos e outras barreiras em busca do objeto de seu desejo. Ainda que na forma de uma fértil imaginação e desconhecendo diferenças de idade, até. Maria das Graças era o nome daquele amor distante alimentado apenas por amorosas cartas.

Estávamos, eu e ele, num balcão de um bar, bebendo cervejas ao som de boleros muito comum por aquelas bandas na época. Faz muito anos, mas aquela história de amor deixou traços e rastros na minha memória fincando fortes raízes nela. Peguntei a Manoel: e aí Manoel como você se sente? - “Melancólico, saudoso e apaixonado, e sem esperanças por achar que um amor como esse não pode dar certo”, respondeu. E por que não? É uma bela história e pode dar certo sim. E o belo é da ordem do divino, insisti. O que se seguiu já não me vem à memória. Muito tempo depois, me pego refletindo sobre o incrível amor de Manoel por Maria das Graças.

Um amor como esse, tardio, com suas características e implicações tem, inegavelmente, traços de melancolia, sentimentos de saudade inquietantes e rasgos de imaginação, aqui no sentido onírico, que nos levam a fazer algumas “viagens” para situações, as quais julgamos quase que reais. É uma coisa um tanto quanto alucinógena, mas linda, o que requer um certo cuidado, mental e espiritual, para não se ficar prisioneiro dele e, ao invés do prazer, viver-se em meio a dores e sofrimentos. No entanto, é uma forma de amar e tanto. Uma forma de amor que provoca instintos amorosos e alimenta a alma ávida de bons desejos. Maria, certamente, foi uma das experiências mais lindas da vida de Manoel. No momento em que eu ouvia a história, senti a dimensão de um amor e de um carinho de um coração que parecia estar abraçando um outro, amorosamente, mesmo distante. A única forma de trazer para perto aquele saudoso amor. O amor é muitas coisas. Ele transforma mundos. E mesmo na forma de sonhos e da fértil imaginação ele é bonito, ele é intenso. E dá rumos e significados à nossa vida.

Lembrei dos versos de Jaiel de Assis, músico paraibano, na canção a Noite Vermelha de Sandra ...“Nada brilha como o céu de fênix, tudo é mistério, nesse céu de fênix, estrela do amanhã, cidade do amanhã, estrada do amanhã, leva meu grito, meu sonho escondido, nesse sonho feito caiporã, leva meu grito…”! É isso, para Manoel e Maria das Graças, com amor.


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