Amigos, tengo por cientos. Por Aloísio Lobo

Amigos, tengo por cientos. Por Aloísio Lobo
28/11/2025


Por Aloísio Lôbo, Jornalista.

“Filho, a maior lição quem nos dá é a natureza. Observe. Ela nos revela tudo, basta apurar o olhar.”

Meu pai dizia isso como quem semeia, sem pressa, achando que a vida faria germinar no tempo certo. Dizia também, com a economia de quem sabia o peso das palavras, que só teve três amigos na vida. Tão amigos que viraram padrinhos de alguns dos meus irmãos. Para ele, amizade não era coleção, era rocha.

Aprendi com ele que amigo não é multidão — é raiz. Podemos regá-los?

Falo, primeiro, dos meus amigos presenciais, esses que já ocuparam outras páginas minhas, feito móveis antigos de uma casa onde a gente sempre volta. Amigos de calçada, de mesa de bar improvisada, de BEC, de redação abafada, de café requentado, de alegrias pequenas e derrotas grandes. Amigos que conhecem meu silêncio e sabem quando ele não é ausência, é apenas cansaço. Esses têm o cheiro da rua regada, o gosto do pão partilhado, o som da gargalhada que estoura antes da piada terminar.

Mas hoje quero falar, sobretudo, dos outros. Dos que não tive a alegria de olhar nos olhos. Dos que nunca abracei de verdade. Dos que ainda não sentaram comigo para um vinho lento, desses que pedem conversa comprida. Amigos que dividem comigo mais que uma plataforma virtual que nos acolhe. Dividem ideias, angústias, trincheiras. Empunham as mesmas bandeiras de luta, mesmo que costuradas em tecidos de paisagens diferentes.

Há os que estiveram geograficamente próximos e, em algum ponto da vida, exilaram-se para longe do calor da linha do equador, fugindo talvez não do sol, mas atrás de alguma sombra. Há os que se paraibaram do Piauí sem perder a nordestinidade na fala mansa, no riso, na saudade que não muda de sotaque. Há os que ficaram pelos Espíritos Santos, discretos como o próprio nome do lugar. Há os extremosos do Sul, quase uruguaios de tanto mate, esquentando a alma em cuias fumegantes. Paulistas de todas as dores e pressas. Fluminenses de mar e contradição. Outros que viraram potiguares por destino, depois de amazonizados por afeto, como se a floresta também soubesse adotar gente.

Somos um país espalhado em laços invisíveis.

Queria reunir todos, todos mesmo, dizendo o nome de cada um, como quem faz chamada em sala de aula da existência. Mas, nessas horas, um Alzheimer seria misericordioso e não mexeria com ninguém pelo esquecimento. O problema é que eu posso. E posso falhar. E falharei com alguém, injustamente. Não serei ex-general da memória, pois meu passado me orgulha, mas também me cobra. Nomear é um risco. Esquecer é uma culpa que não se resolve em ata.

Ainda assim, estão todos aqui. Mesmo os que não couberem nas letras.

Queria-os todos no mesmo recinto. Uma zoada contínua, dessa em que ninguém escuta ninguém direito e, ainda assim, todo mundo se entende. Todos falando de uma só vez: política, poesia, injustiça, comida, doença, filhos, derrotas, esperanças. Um oceano de compreensão e harmonia desorganizada, como toda festa de encontro deve ser. Sem protocolo, sem medalhas, sem discursos longos — apenas a cerimônia simples de estar junto.

Talvez meu pai tivesse razão mais uma vez. A natureza revela tudo para quem sabe observar. E eu observo meus amigos como quem observa um rio: uns passam rápido, outros ficam nas margens, alguns voltam em épocas de cheia. Mas todos, de alguma forma, fazem parte da mesma água que me atravessa.

Os amigos presenciais me dão o corpo do mundo. Os amigos distantes me dão sua geometria secreta.

E entre uns e outros, sigo eu — esse sujeito feito de encontros — tentando ser digno, ao menos um pouco, das amizades que a vida me concedeu.

(*) Amigo.


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