
Presidente da Contag denuncia concentração fundiária e defende justiça climática com combate ao racismo ambiental e ao fascismo como pilares para enfrentar negacionismo
Publicado 28/03/2026 23:19 | Editado 28/03/2026 23:20

A 8ª mesa da I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, realizada na noite de 28 de março em Porto Alegre, debateu “A Luta Contra o Negacionismo Climático e Pela Reforma Agrária no Contexto da Crise Ambiental”.
Sob mediação de Lara Rodrigues, dirigente do MST, a mesa reuniu vozes do Brasil e do exterior que convergiram na ideia de que o atual padrão de desenvolvimento — baseado no agronegócio, na exploração intensiva dos recursos naturais e na financeirização — aprofunda desigualdades e acelera o colapso ambiental. Discutiu-se como a reforma agrária popular e a agroecologia podem ser instrumentos de enfrentamento à emergência climática e ao avanço do fascismo.
Concentração fundiária e emissões: o modelo que destrói
Em sua intervenção, Vânia Marques Pinto, primeira mulher a presidir a Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura), denunciou a estrutura fundiária excludente do Brasil. “Cerca de apenas 23% das terras agricultáveis estão sendo ocupadas por agricultores e agricultoras familiares, camponeses e camponesas. Os outros 77% estão no monopólio do latifúndio”, afirmou.
Segundo Vânia, esse modelo agrário-exportador é a principal fonte de emissões de gases de efeito estufa no país, impulsionado pelo desmatamento para produção de soja e pecuária intensiva. “É muita gente sem terra e muita terra sem gente”, citou, parafraseando o compositor Samba da Benção, para denunciar a contradição que sustenta o agronegócio.
A dirigente destacou que há uma disputa de narrativas no território brasileiro: “O campo do agronegócio é vendido como ‘agro é pop, agro é tudo’, enquanto o campo da agricultura familiar é o campo com gente, das pessoas, das águas e das florestas”. Para ela, a agricultura familiar não é apenas um espaço de produção, mas um projeto de vida que preserva o meio ambiente para as gerações futuras.
Agroecologia como tecnologia de resistência
Vânia defendeu a agroecologia como o caminho para produzir em equilíbrio com a natureza, sem uso de venenos e praticando agrofloresta. “É necessário reconhecer que a agroecologia é o melhor caminho para produzir sem comprometer o meio ambiente”, sustentou. Mas alertou que isso exige políticas públicas que incentivem a transição agroecológica, e não continuem financiando o modelo predatório.
A dirigente criticou o fato de que, mesmo com avanços no Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar), o acesso a linhas sustentáveis ainda é minoritário frente aos créditos para produção de commodities como soja. “Como conseguimos enfrentar essas narrativas que estão postas?”, questionou, reforçando a necessidade de mudar o eixo das políticas públicas.
Negacionismo climático e fascismo: duas faces da mesma moeda
Um dos pontos centrais da fala de Vânia foi a conexão entre negacionismo climático e ascensão fascista. “Falar em combater o negacionismo da crise ambiental também é falar o quanto o fascismo está crescendo no mundo e no Brasil”, afirmou. Segundo ela, a narrativa de negar a crise climática, as vacinas e a ciência fortalece o capital e se alimenta da base ideológica do fascismo.
“Derrotar o fascismo é a principal arma para que a gente consiga avançar no combate ao negacionismo climático, elegendo parlamentares, elegendo pessoas que sejam do campo da esquerda, da democracia, da ciência e da defesa da vida”, defendeu.
Justiça climática: racismo ambiental e desigualdade de gênero
Vânia Marques Pinto trouxe ainda a perspectiva da justiça climática, alertando que não basta falar em economia de água ou redução de emissões sem olhar para quem sofre os impactos. “Não se olha para o racismo ambiental, para a desigualdade, porque é necessário combater as desigualdades socioambientais”, afirmou.
Segundo ela, mulheres e pessoas negras que vivem nas periferias são as mais afetadas por eventos climáticos extremos. “Quando tem uma crise, quando se tem um evento climático, são essas pessoas que morrem”, denunciou. Por isso, defendeu que a luta climática deve incorporar o combate ao racismo e a promoção do letramento racial e de gênero.
Educação e mobilização: ferramentas para a transformação
Para concluir, Vânia reforçou que a transformação só virá com educação, formação política e ocupação dos territórios. “É necessário que os partidos políticos façam suas formações políticas e ocupem as favelas, o campo, os acampamentos, as ruas para conversar com o povo”, afirmou.
A dirigente encerrou destacando que “só vamos conseguir avançar se vencer essas forças da extrema-direita que estão afetando os nossos países”. Sua intervenção sintetizou o eixo central da mesa: a reforma agrária popular, a agroecologia e a justiça climática não são apenas bandeiras setoriais, mas componentes de um projeto anticapitalista e antifascista de sociedade.
Demais intervenções e perspectivas estratégicas

A mesa contou ainda com contribuições de Omar Aziki (Marrocos), que discutiu soberania alimentar em contextos de guerra; Michel Löwy (ecossocialista), que denunciou o agronegócio como sustentáculo do fascismo bolsonarista; e José Corrêa Leite (Fórum Social Mundial), que alertou para a aceleração da emergência climática e a necessidade de romper com o fossilismo.
João Pedro Stedile, do MST, participou por vídeo, destacando que o capitalismo em crise apela para a apropriação dos bens da natureza e para conflitos armados como táticas de acumulação. “Não há como compartilhar uma vida saudável no planeta dentro do capitalismo”, afirmou, defendendo desmatamento zero, reflorestamento e agroecologia como medidas concretas enquanto se constrói a mudança estrutural. No Brasil, destacou, o modelo do agronegócio é central na emissão de gases de efeito estufa, seja pelo desmatamento, seja pela pecuária intensiva.
O sociólogo Michel Löwy apresentou o conceito de ecossocialismo como alternativa sistêmica. Segundo ele, não há solução capitalista para a crise ecológica, e a superação do modelo vigente exige a integração entre justiça social e sustentabilidade ambiental.
A proposta, reforçada por outros participantes, defende uma reorganização radical da produção e do consumo, colocando a ecologia como eixo central — e não periférico — das políticas públicas e dos projetos políticos da esquerda.
O marroquino Omar Aziki trouxe uma perspectiva global ao debate, relacionando crise climática, guerras e soberania alimentar. Segundo ele, regiões como o Norte da África e o Oriente Médio sofrem com impactos ambientais severos, embora sejam pouco responsáveis pelas emissões globais.
Aziki destacou ainda que conflitos armados, destruição de territórios e controle dos recursos naturais fazem parte de uma dinâmica imperialista que agrava tanto a crise ambiental quanto a insegurança alimentar.
Para Zé Corrêa, o mundo já ultrapassou o estágio de “crise” e vive uma emergência climática acelerada, com riscos irreversíveis. Ele alertou que o tempo das soluções graduais se esgotou, exigindo respostas estruturais imediatas.
Corrêa também chamou atenção para o papel das cidades, onde vive a maior parte da população, destacando que os impactos climáticos — como enchentes e ilhas de calor — exigem políticas urbanas integradas à agenda ambiental.
Nos debates, Annie Hsiou (USP/Andes) e Jairo Boelter (UFRGS) reforçaram a necessidade de planos municipais de emergência climática e de redirecionar políticas públicas para financiar produção limpa e alimentos, não commodities.
A debatedora Annie Hsiou reforçou que políticas públicas precisam priorizar esse modelo, articulando campo e cidade. Já Jairo Boelter alertou para a necessidade de reorientar financiamentos estatais, hoje ainda concentrados em práticas agrícolas insustentáveis.
Reforma agrária e agroecologia como resposta

A 8ª Conferência encerrou com consenso sobre a urgência de articular luta pela terra, justiça climática e enfrentamento ao fascismo como eixos indissociáveis de um projeto ecossocialista de sociedade. Como sintetizou Vânia Marques Pinto: “Enquanto houver capitalismo, todas as mudanças vão ser paliativas. A mudança real só virá com o fim desse sistema que oprime e mata”.
Entre os consensos da mesa, destacou-se a defesa da reforma agrária como instrumento central para enfrentar a crise climática. A agroecologia foi apresentada como alternativa concreta ao modelo do agronegócio, capaz de produzir alimentos saudáveis, preservar a biodiversidade e reduzir emissões.
Outro eixo central foi a relação entre negacionismo climático e avanço da extrema direita. Para os participantes, a negação da ciência, da crise ambiental e das desigualdades sociais fortalece projetos políticos autoritários.
Nesse sentido, o enfrentamento ao fascismo apareceu como condição para viabilizar políticas ambientais efetivas, articulando democracia, justiça social e preservação do planeta.
A conferência apontou que o debate ambiental é, sobretudo, um debate político e de projeto de sociedade. Entre o modelo atual — baseado na exploração intensiva e na concentração de riqueza — e a alternativa defendida pelos movimentos sociais, está em disputa o futuro das próximas gerações.
Todos os campos são obrigatórios - O e-mail não será exibido em seu comentário