Eurofestival: a incapacidade para conviver - por José António Rodrigues do Carmo

Eurofestival: a incapacidade para conviver - por José António Rodrigues do Carmo
18/05/2026


Parece mentira, mas esta gente acredita representar a tolerância, quando, na verdade, representa exactamente o contrário: a incapacidade crescente para conviver com a própria pertença. José António Rodrigues do Carmo para o Observador:


No “meu tempo”, o Eurofestival da Canção era apenas o que era, um bom momento televisivo, uma extravagância kitsch que juntava milhões de europeus durante uma noite, coexistindo em paz ao som de refrões de todos os tipos, coreografias imaginativas de gosto variável, fatiotas que, por vezes, pareciam desenhadas sob influência de narcóticos pesados e canções leves, que ficavam no ouvido e que não pretendiam reeducar ninguém, com excepção de 1975, quando Portugal tropeçou na parolice de aparecer com uma cançoneta de comício revolucionário que ficou merecidamente nos últimos lugares.

Mas a intenção subjacente ao Eurofestival era mais séria. Depois da Segunda Guerra Mundial, a Europa precisava desesperadamente de rituais de convivência. Precisava de espaços onde os seus diferentes povos pudessem interagir sem artilharia pesada, fogo de carros de combate e bombas de aviação. A Eurovisão foi uma das tentativas, ingénua e bem intencionada, de ajudar a construir uma identidade comum através da cultura ligeira.

O resultado superficial foi uma lista de êxitos, que ficaram no ouvido, de “Volare” a “Waterloo”, passando por “Eres tu”, “L’amour est bleu”, “Poupée de cire, poupée de son”, “Hallelujah”, etc.

A política sempre lá esteve, evidentemente. Os votos balcânicos, os amuos escandinavos, as vinganças mediterrânicas e as alianças regionais faziam parte do folclore. Mas existia a regra implícita de que ninguém era expulso da sala por existir.

Essa regra está a morrer e até José Cid, que andou por lá a cantar livremente “Adieu, Au Revoir”, em várias línguas, veio na semana passada a público, num momento lamentável da sua carreira, juntar-se ao rebanho maligno dos que, 90 anos depois, voltam a apelar ao “Juden Raus”.

O Festival de 2026 mostrou que até um simples concurso musical passou a funcionar como mira telescópica para a caça ao judeu. Já não se discute se a canção israelita é boa, medíocre ou merecedora de prisão perpétua. Discute-se se Israel, o “judeu” do sistema internacional, deve ter o direito de participar.

Espanha, Irlanda, Eslovénia, Islândia e Países Baixos boicotaram o concurso por causa da presença israelita. Quatro têm governos de esquerda; o quinto tem um aparelho mediático-cultural colonizado pela esquerda progressista. Coincidência? Não, é mesmo padrão!

O que une estes países é uma visão moral do mundo assente no ódio. Uma leitura infantil-marxista da política internacional dividida entre “opressores” e “oprimidos”, na qual Israel foi promovido a encarnação metafísica de todos os pecados do Ocidente: fronteiras, força militar, identidade nacional, patriotismo e capacidade de defesa.

Para estas “elites”, o Hamas não é exactamente um movimento genocida mas apenas uma reacção compreensível, como alvitrou em tempos o Engenheiro Guterres. Israel, pelo contrário, não é exactamente uma democracia atacada, mas uma abstracção moral merecedora de todas as condenações, um objecto de vudu onde se espetam todas as agulhas.

Ah, mas a Rússia também foi excluída, argumentam, como se a prima do mestre de obras fosse o mesmo que a obra-prima do mestre. A diferença entre a Rússia invadir a Ucrânia para anexar território e Israel responder a ataques deliberados contra civis tornou-se irrelevante para certos sectores europeus. O importante é preservar a narrativa correcta, na qual Israel ocupa o papel obrigatório de vilão.

O mais perturbador é que muitos destes activistas, num paroxismo de dissonância cognitiva, se consideram ferozmente humanistas. Protestam contra o “ódio”, combatem a “desumanização” e organizam eventos sobre tolerância enquanto insultam um cantor israelita num festival da canção, assediam estudantes judeus na universidade de Coimbra, e incendeiam sinagogas nas cidades do Ocidente.

O antissemitismo moderno não usa bigodes ridículos e diz que não odeia “judeus por serem judeus”, limita-se a considerar que o único Estado judeu do planeta é o mal absoluto, merece um escrutínio moral infinitamente superior ao aplicado à China, à Rússia, ao Irão, à Turquia, ao Qatar, a Cuba, à Coreia do Norte, ou ao Bangladesh, e cada judeu avistado na rua é uma mera versão antropomórfica de Israel, apto a levar por tabela.

Na melhor das hipóteses, é certamente uma coincidência extraordinária que, entre quase duzentos países do mundo, o radar ético destas “elites” só dê sinal quando aparece uma estrela de David.

Mas o que realmente enfurece as “elites” culturais é que, apesar dos boicotes institucionais, das manifestações, das flotilhas financiadas por terroristas, dos slogans mentirosos, dos activistas profissionais e da histeria mediática, os concorrentes israelitas continuam a receber votações elevadas do público europeu.

Os progressistas “antissionistas” actuais estão prisioneiros de uma convicção teológica: a de que quem discorda deles só pode estar a ser manipulado, desinformado ou moralmente corrompido. A hipótese de milhões de europeus pensarem autonomamente fora das bolhas universitárias e jornalísticas onde se repoltreiam, parece-lhes simplesmente obscena.

Por isso, cada votação inconveniente passa imediatamente a ser suspeita. Fraude. Bots. Manipulação. Conspiração judaica. Qualquer explicação serve desde que evite a óbvia: a de que talvez as pessoas comuns estejam cansadas da arrogância e da chantagem moral permanente.

O problema, porém, vai muito além da Eurovisão e do antissemitismo.

O festival é apenas um pequeno sintoma de uma doença mais profunda do Ocidente que consiste na substituição gradual da cidadania pela identidade tribal.

Hoje, a política deixou de ser uma disputa entre ideias para se transformar numa guerra entre pertenças emocionais. Raça, género, etnia, sexualidade, ressentimento histórico e alinhamento ideológico passaram a definir a posição moral dos indivíduos antes mesmo de abrirem a boca.

Já não somos cidadãos. Somos categorias.

E quando as sociedades começam a olhar umas para as outras como tribos rivais em competição existencial, tudo se degrada rapidamente. As universidades tornam-se centros de activismo. Os media convertem-se em instrumentos de militância moral. Os tribunais passam a ser avaliados conforme favorecem “o lado certo”. Até ao ponto em que um mero festival da canção exige alinhamento geopolítico certificado.

É necessário deslegitimar moralmente o adversário, transformá-lo numa ameaça, torná-lo impuro e mau, porque o normal desacordo típico de uma democracia, passa a ser interpretado como sinal de contaminação ética.

Portugal não está imune a isto. Pelo contrário. A importação acrítica das esquizofrenias identitárias já contaminou parte significativa da nossa elite cultural, mediática e académica. O patriotismo tornou-se suspeito. A identidade nacional é frequentemente descrita como catálogo de pecados históricos. A História serve apenas para o colocar o país, o passado e os nossos ascendentes eternamente no banco dos réus.

Não é pois de espantar que cresçam o cinismo, a polarização e a desconfiança nas instituições. Uma democracia precisa de um sentimento mínimo de pertença comum. Precisa de cidadãos capazes de aceitar que o adversário político continua a fazer parte da mesma comunidade nacional. Precisa de um “nós”.

Mas o progressismo identitário contemporâneo vive precisamente da destruição desse “nós”. Precisa da fragmentação permanente para sobreviver politicamente. Precisa de vítimas colectivas, ressentimentos activos e indignações contínuas. Precisa de transformar cada desacordo, cada evento, cada fenómeno da filigrana do quotidiano, numa batalha apocalíptica entre o Bem e o Mal.

Por isso, tudo se tornou existencial. Cada eleição é a última oportunidade para salvar a democracia. Cada polémica cultural é um ataque à dignidade humana. Cada divergência é violência simbólica ou estrutural. Cada cantor israelita é um criminoso de guerra potencial. Cada judeu é um genocida.

Parece mentira, mas esta gente acredita representar a tolerância, quando, na verdade, representa exactamente o contrário: a incapacidade crescente para conviver com a própria pertença; a incapacidade para distinguir um adversário de um inimigo; a incapacidade de aceitar que uma sociedade livre implica contacto permanente com opiniões, símbolos e entidades que nos desagradam.

A verdadeiro tragédia do Eurofestival de 2026 não é o facto de cinco países boicotarem o cantor israelita, mas o facto de muita gente já nem sequer perceber por que razão isso nos deveria envergonhar.

Entre eles, o atarantado José Cid e um alegado “grupo de trabalhadores da RTP”, cujos nomes se desconhecem mas cuja prosápia é conhecida e requentada.

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FONTE: O Observador - via Blog do Orlando Tambosi

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