Gaslighting - por Patrícia Fernandes

Gaslighting - por Patrícia Fernandes
06/07/2026




Trata-se, de fato, de um conceito politicamente útil: afinal, quantas vezes nos tentaram já convencer a negar a realidade ou a ignorar percepções? Patrícia Fernandes para o Observador:

1 Palavras novas

Sou a primeira a reconhecer o excesso de anglicismos no nosso espaço público. Mas temos de lhe dar algum crédito: a língua inglesa, sobretudo no contexto norte-americano, revela uma enorme versatilidade e enriquece, muitas vezes, a interpretação do mundo com palavras novas.

Consideremos o caso de “gaslighting”. A palavra inspira-se na peça Gas Light do britânico Patrick Hamilton, adaptada ao cinema em 1944 e que conta a história de um marido que manipula lentamente a mulher até ela enlouquecer. O título remete para a iluminação (a gás) da casa: embora as luzes estejam gradualmente a apagar-se, o marido insiste com a mulher de que estão ligadas ao ponto de ela deixar de confiar no que está a ver.

De acordo com o Merriam-Webster Dictionary, o termo passou a ser usado, na segunda metade do século XX, para referir

“a manipulação psicológica de uma pessoa, geralmente ao longo de um período prolongado, que leva a vítima a questionar a validade dos seus próprios pensamentos, da sua perceção da realidade ou das suas memórias e que, normalmente, resulta em confusão, perda de confiança e de autoestima, incerteza quanto à sua estabilidade emocional ou mental e dependência do agressor”.

Foi especialmente aplicado em contextos terapêuticos, sobretudo dentro daquela dinâmica feminista de culpar os homens por todos os problemas da relação, mas ganhou, na última década, um sentido gradualmente mais político para situações de ambiguidade informativa, desinformação, fake news ou deepfake. E acabou por se popularizar com o sentido mais lato de “ato ou prática de induzir alguém em erro de forma flagrante, especialmente para obter vantagem pessoal”.

Trata-se, de facto, de um conceito politicamente útil: afinal, quantas vezes nos tentaram já convencer a negar a realidade ou a ignorar perceções?

2 Negar a realidade

Na última década, a exigência de que negássemos a realidade foi feita constantemente a propósito do “princípio da autodeterminação de género”, com a justificação de que o “género” pelo qual queremos ser reconhecidos seria uma mera questão de autonomia e escolha individual. Questionar este princípio era prova de desumanidade ou – o que é pior – de extrema-direita.

Pratiquemos a caridade interpretativa uma vez que o problema é mais subtil do que, por vezes, é reconhecido. Se considerarmos o enquadramento hiperliberal que nos envolve em termos culturais, o “género” seria realmente só mais uma área em que a pessoa deve ser livre para exercer a sua autonomia. E tratando-se de adultos, havendo consentimento informado e não se verificando dano a outrem, parecia não haver razões para nos opormos.

É porque partem desta conceção liberal de moralidade (regressaremos ao tema em breve) que tantas pessoas não veem problemas na autodeterminação de género. E como muitas vezes me disseram, “se a pessoa se quer tornar mulher/homem, qual é o problema? Não é uma questão de simples respeito e delicadeza para com essa pessoa? Não é simplesmente uma questão de adaptarmos a nossa linguagem aos desejos dessa pessoa?”

A jornalista Bari Weiss, em conversa com o linguista John McWhorter, mostra que o problema não é assim tão simples. De facto, quais são as implicações mais profundas em termos sociais de passarmos a tratar como mulher/homem alguém que é claramente do sexo oposto? Para Weiss, se conseguirmos manipular as pessoas ao ponto de dizerem que um homem é uma mulher – levando-as a rejeitar a realidade biológica, a negar algo que vai contra o senso comum, a recusar o mecanismo que parece estar instalado no nosso funcionamento biológico mais básico –, então seria possível convencer as pessoas a aceitar qualquer outra coisa: que os homens podem estar em prisões de mulheres, que podem disputar competições desportivas femininas, que podem ser contratados como mulheres para garantir “a diversidade de género”.

Deixa de haver limites ao que podemos aceitar e essa é a mais poderosa forma de autoridade. A luta contra o princípio da autodeterminação de “género” é, por isso, ainda importante e necessária.

3 Negar as perceções

Mas há um outro tema em que temos sido socialmente conduzidos a negar as nossas perceções. A iluminação estava claramente mais fraca, mas a maioria das vozes no espaço público dizia que não: que o que víamos à nossa volta, com os nossos olhos, na nossa vida quotidiana não correspondia à realidade e que quem ousava falar do problema era desumano, racista, xenófobo ou – o que é pior – de extrema-direita.

Refiro-me, claro, à experiência social de imigração a que fomos sujeitos em Portugal na última década. Não foi espantoso como tantos políticos, jornalistas e comentadores insistiram em dizer para negarmos aquilo que víamos quando saíamos à rua? Insistiam que não estávamos a ver bem, que as perceções enganam, que eles sabiam mais e melhor. Até que, finalmente, os números confirmaram aquilo que todos sabíamos: não só que o número de imigrantes era muito superior ao que se dizia, como a população total era muito superior ao que se pensava – um aspeto fundamental para discutir políticas públicas sobre habitação, educação e saúde e que estávamos simplesmente a ignorar. Afinal, o problema estava na incapacidade de o estado gerir informação sobre a realidade – não estava nas nossas perceções.

Esta tentativa de gaslighting simboliza bem a separação entre as elites e o resto da população que tem marcado a última década – e que tem impossibilitado um diálogo social frutífero. Quando as elites estão ideologicamente tão distantes do mundo real, não é surpreendente que os partidos “populistas” cresçam e que o compromisso se torne cada vez mais difícil.

Igualmente relevante, e como se chama a atenção no episódio do Contra-Corrente dedicado ao tema, a nova informação permite-nos compreender por que razão o crescimento económico que era tão elogiado não era sentido pelas pessoas comuns, que, pelo contrário, sentiam a vida objetivamente pior – nas rendas, nos supermercados, nos centros de saúde e, principalmente, nas escolas: é que esse crescimento económico simplesmente não aconteceu.

Devemos reconhecer que não há nada de errado em estar errado – todos passamos por isso em algum momento das nossas vidas – e é verdade que as nossas ideias e os nossos desejos políticos nos podem enganar muitas vezes – acontece-nos a todos em algum momento das nossas vidas.

O problema é quando, insistindo nos nossos erros e colocando as nossas ideias e os nossos desejos à frente da realidade, tentamos silenciar os outros e convencê-los de que aquilo que veem e sentem não é verdade. Isso, sim, é verdadeiramente perverso.

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Muito obrigado]

FONTE: O Observador - via Blog do Orlando Tambosi (otambosi.blogspot.com)

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