DECLARAÇÃO DE VIDA - João Batista de Brito

DECLARAÇÃO DE VIDA - João Batista de Brito
17/05/2024

DECLARAÇÃO DE VIDA

João Batista de Brito


Enquanto você está trabalhando, ninguém tem dúvidas se você está vivo. Mas, se aposente, para ver uma coisa.

Para o Governo, todo aposentado está à beira da morte. E, portanto, precisa sempre provar que ainda vive. Precisa regularmente encaminhar aos setores competentes a sua declaração de vida.

Pois, aposentado há já tanto tempo, declaro que nunca estive tão vivo. Até parece que quanto mais o tempo passa, mais vivo fico.

Hoje em dia, mais do que nunca, acordo disposto a curtir mais um dia sem nada a fazer. Coisa maravilhosa!

Nada. Só tomar meu banho de sol matinal no meu álacre jardim; saborear devagarzinho o meu café da manhã, com muita fruta, não porque faz bem à saúde, mas porque gosto; espreguiçar-me na rede e ler o que me der na telha, ou simplesmente não ler nada; fazer palavras cruzadas, ou rabiscar em folhas de papel os desenhos que sempre rabisco: rostos, rostos, rostos – que depois jogo sistematicamente no lixo; ligar para um amigo ou amiga e conversar amenidades, ou receber ligação deles/delas com o mesmo fim; ou, se for o caso, com o fim de marcar saídas para os pontos mais aconchegantes da cidade, para um papinho descontraído. Coisas assim...

Mexer o esqueleto na ginástica caseira, ouvindo jazz ou bossa nova. Sempre jazz, sempre bossa nova. Almoçar sem hora marcada e sem regime, com direito a uma longa sesta. Assistir a um filme qualquer, sem compromisso nenhum de escrever sobre, nem mesmo de vê-lo até o final, nem sequer de lembrar que o vi.

Meter os tênis nos pés e me mandar para as calçadas de Manaíra, sobretudo à tardinha, quando o sol fraco deixa a paisagem mais dourada e mais bela. Caminhar sem pressa de chegar, e parar em qualquer lugar sem motivação aparente. Qualquer beira de calçada serve.

Perder tempo olhando os passantes, e brincar de adivinhar seus possíveis pequenos, ou grandes, dramas domésticos. Aquele rapaz que fala andando acho que não tem com quem conversar em casa; o casal que anda de mãos dadas quer provar que é unido; a moça com cara de tristeza puxa seu cachorrinho idem; os três senhores que correm discutindo negócios não devem estar aposentados; o casal gay que se beija na rua desconta os séculos de repressão; a mãe que guia o carro do bebê o faz como se estivesse na passarela, e têm razão; a senhorinha idosa na cadeira de rodas parece mais alegre e cheia de vida do que a sua jovem condutora; a criança que solta a mão adulta e abraça o cão que passa parece mais sensata que o pai; o ciclista que passa em velocidade é só um traço na beleza da paisagem...

Uma alternativa adicional, claro, é esquecer os passantes e sentar debaixo da minha castanhola de estimação, sentir o vento no rosto, e olhar o mar e seus mistérios, sem indagações metafísicas. Só prazer.

Caída a noite, jantar onde o apetite me levar - foodtruck, lanchonete, pizzaria, café, shopping, onde der. Eventualmente, pode ser em restaurante de mais prestígio - neste caso, tem que ter uma tacinha de vinho tinto, o prato principal podendo ser um spaghetti a putanesca, ou um peixe a belle meunière, ou um risoto de peru, ou um linguine ao camarão bem feitinho. Se o jantar por acaso for acompanhado, melhor ainda. Depois, voltar para casa e dormir o sono dos pacatos, sem culpas, tensões, angústias ou pesadelos.

Uma vidinha saudavelmente inútil como nunca tive. Tudo leve, tudo suave, tudo rasinho e gostoso. Desculpem, mas, nada de Bergman, nada de Kafka; sobretudo, nada de Heidegger...

Se porventura me bate a vontade de escrever, serão textinhos sem quaisquer preocupações literárias; textinhos irresponsáveis, inconsequentes e completamente descartáveis, como este.

Os compromissos – profissionais, sentimentais ou de outra ordem – eu os deixo aos jovens, esses seres sofredores, coitados, sufocados pelo opressivo fardo de construir uma vida futura. A minha vida futura, bem ou mal, está construída.

Amanhã morro. E daí? Vivo, vivi.


FONTE: Facebook

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