MALDITO APPETITO - João Batista de Brito

MALDITO APPETITO - João Batista de Brito
17/06/2024

MALDITO APPETITO

Dia dos Namorados, o restaurante lotado. O casal quase não conseguia mesa. Queriam uma mesa na parte externa, aquela de onde se via a rua, mas tiveram que ficar na parte de dentro mesmo.
Com a lotação, o atendimento naquela noite não estava à altura, mas – que importava? – valia a ocasião, o clima romântico, a troca de doces palavras, um discreto toque de mãos ou lábios, a celebração de quase três anos de namoro firme.
Do Appetito eram fregueses – ela de longa data, ele nem tanto. De forma que foi ela quem sugeriu o prato e mesmo o vinho. E saiu tudo como desejado. Uma noite inesquecível, registrada nos celulares, com o obséquio do prestativo garçom.
Só não foi tudo perfeito porque, no manuseio dos talheres, um pouco de molho de tomate escorreu para a saia dela, e o guardanapo não ajudou a apagar a mancha vermelha. Não teve jeito. Só indo ao banheiro. E ela foi.
Só na mesa, ele começou a prestar atenção ao ambiente. Aquela era a sua segunda ou terceira vez no Appetito e nunca havia notado a sua caprichosa decoração. Encheu-lhe a vista aquela coleção de pratos decorando as paredes, cada prato com nomes de casais gravados, com certeza, casais apaixonados que exigiram do dono do restaurante o registro de suas assiduidades.
Curioso, ele levantou-se e foi olhar mais de perto os pratos. Quem sabe não identificaria algum casal conhecido. Foi olhando, um a um, e parou num deles: rápido, tirou o celular do bolso e fotografou. Voltou para a mesa apressado, e na mesma pressa, pediu a conta.
Ao voltar do banheiro, ela o encontrou de rosto fechado, meio sério. Rindo, mostrou-lhe a saia molhada no local da mancha e ele pareceu indiferente, um tanto frio. E se surpreendeu ao saber que ele já pedira a conta.
Estranhando a inesperada frieza, ela perguntou se estava tudo bem, e ele, com a mesma frieza, respondeu que sim, e por que não estaria. Paga a conta, saíram calados, para espanto dela, sem as mãos dadas de sempre.
Haviam planejado um sorvete na orla à guisa de sobremesa, porém, ele disse que não estava mais a fim, que estava cansado e preferia ir para casa dormir. E foi dirigindo, com certa velocidade, no sentido da rua dela, para deixá-la em casa.
Claro que, a essa altura ela estava completamente intrigada com essa súbita e inexplicável mudança de humor no dia dos namorados, e antes de descer do automóvel, cobrou: “Eu não saio desse carro antes de saber o que está acontecendo!”
Mas saiu: ele insistiu no cansaço, acrescentando que amanhã ligaria e conversariam. Promete? Prometo.
Na manhã seguinte ele não cumpriu a promessa, e ela ligou: “Vamos conversar?”
E ele, telegráfico: “Vai no whatsapp”. E desligou.
Ela abriu o whatsapp e viu o que não queria: a foto de um prato do Appetito com os nomes dela e de seu ex-namorado, um cara que o seu atual detestava e de quem, mesmo sem razão nenhuma, morria de ciúmes. Cheio de convulsões, o namoro acabara havia cinco anos, e, no entanto, o prato – para seu assombro – ninguém nunca tivera a providencial lembrança – nem mesmo ela - de retirar da decoração do restaurante.
Ali estava a receita perfeita – pensou ela – de como estragar o Dia dos Namorados.
Ah, maldito Appetito!


FONTE: Facebook

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